Uma gravidez de risco, num novo país

Estar grávida já é por si só uma grande mudança, estar grávida e mudar para um novo país é desafiante. Ou melhor, tem sido para mim.

Não é minha primeira gravidez, mas é a primeira gravidez que passo da vigésima terceira semana! Sim, já perdi duas vezes, a primeira por volta das 20 semanas e a segunda com um pouco mais.

Nem sei dizer sobre todos os sentimentos que vêm quando vivenciamos experiências como estas, mas a vida é assim, acredito que estamos aqui para aprender e sem dúvida, nada nesta vida me fez aprender mais do que estas perdas. Portanto, não só estou grávida num novo país, estou vivendo uma gravidez de alto risco neste novo lugar e quero neste texto dividir um pouco de como tem sido viver tudo isso junto.

Contextualizando um pouco mais, sou aquela que defende parto domiciliar, que sempre acreditou na possibilidade do parto natural, que sonha com relações mais humanas em todos os espaços, principalmente em hospitais, mas é deste lugar que mais temo a falta de humanização. Fujo de alopatia, recorro a remédios quando sinto realmente necessidade, me trato há anos com medicina antroposófica, e acredito muito nesta medicina que se preocupa mais com a causa do que com o sintoma. Quero acima de tudo me sentir enxergada e respeitada neste meu processo de gravidez e principalmente no dia do parto, e sei que isso demanda energia.

No Brasil já conhecia as referências de médicos com uma visão assim, espaços de discussão sobre partos humanizados e, enfim, sabia encontrar estas tribos das quais me sinto parte, mas aqui em Portugal não sei nada.

Busquei indicações de médicos, e falei com algumas pessoas que tiveram filhos aqui, e fui percebendo e ainda estou neste processo de descobrir, mas sinto que há muito conservadorismo. A taxa de cesáreas no Brasil é uma das mais altas do mundo, soube que a taxa de mortalidade infantil aqui em Portugal é uma das mais baixas da Europa, em contrapartida é o país da Europa com mais intervenção, ou seja, o país com mais cesáreas da Europa e isso me assusta.

Então, meu maior objetivo chegando em Lisboa era encontrar um médico em que eu confiasse. Marquei a consulta com um médico que uma conhecida portuguesa me indicou alegando ser o melhor, me disse, “ele foi o médico de praticamente todas as minhas amigas e todas amam”. Lá fui eu, um pouco apreensiva, com um desejo enorme de encontrar alguém em quem confiar, sentei na frente dele, um senhor de uns 70 anos, muito experiente, personalidade forte, falava alto, me ouvia pouco, até um dado momento onde o perguntei: E o senhor trabalha com doulas? Não esqueço do par de olhos verdes olhando para mim e respondendo em alto e bom tom:

DOULAS? DOULAS? SÃO TODAS UMAS TOLAS! Não permito que trabalhem comigo, enganam as mulheres e atrapalham o meu trabalho, não preciso delas…

Para quem não conhece o termo:

dou.laˈdowlɐ

nome feminino

mulher que aconselha, acompanha e dá assistência não clínica (física,emocional, etc.) a mulheres grávidas, antes, durante e após o parto.

Neste momento a consulta já havia terminado para mim, este certamente não seria o meu médico. Deu aquele certo sentimento de desamparo, que quando estamos no desconhecido fica sempre maior, mas por outro sabia que fazia parte do processo!

Uma grande amiga minha americana, Kimberly Ann Johnson, que também é doula, me trouxe uma importante conexão aqui, uma doula portuguesa, que não vive em Lisboa, mas vive próximo, na cidade de Sintra.

Nada melhor nesta vida, do que conexões, isso vale para tudo, num novo lugar mais ainda, Carla, a doula portuguesa não conseguia encontrar nomes de médicos em Lisboa com esta visão de parto humanizado, só para os lados de Cascais e Sintra.

Neste momento me preocupei, constatei que de fato era algo mais raro do que eu imaginava. Mas como sempre há uma luz no fim do túnel, ela lembrou de uma médica que também atendia numa clínica aqui em Lisboa. Dr Patricia Teixeira!!! Sim, trabalha com doulas e mais do que isso, tem cuidado da minha gravidez de risco com extremo cuidado e acompanhamento, sabe que meu grande desejo é parto natural, mas este nem tem sido o tema. Antes de pensar no parto, o mais importante agora é garantir que minha menina fique aqui até a hora certa de nascer.

Tenho Incompetência Istmo Cervical, como se não bastasse nosso sentimento de incompetente, o nome da ‘’doença” vem apenas para reforçar! rs. Isso significa que meu colo do útero não consegue segurar o peso do bebê, e por isso as perdas tardias. Uma das melhores soluções é fazer a cerclagem, costurar o colo do útero no início da gravidez e foi o que fiz lá no Brasil antes de vir.

mer_barriga2Enfim, vivo uma gravidez em que tudo vai bem, já estamos no sexto mês e agora a fase de maior risco, por que o bebê já pesa mais de 500g e com isso tenho que evitar caminhar e ficar muito tempo de pé, de preferência deitada. A cautela é 24h, exames quinzenais para controlar as possíveis infecções urinárias, já estou no antibiótico pela segunda vez. Em contra partida, tenho um marido muito parceiro, que me leva à praia, que me ajuda em tudo que preciso, me leva na cadeira de rodas quando quero fazer compras no supermercado orgânico, meu maior hobby ultimamente, rs. Me ajuda a enfrentar com leveza um momento meu de profunda vulnerabilidade, mas também de profundo agradecimento de poder carregar aqui nossa filha e fazer deste processo mais um caminho de aprendizagem, para juntos nos tornarmos pais e sem dúvida, pessoas melhores!

Até já, com mais experiências lisboetas para dividir.

 

 

 

Comentários

  1. Vai dar tudo certo!! Que bom que encontrou a Patrícia!!! Já já sua bonequinha estará em seus braços da maneira que tiver que chegar. Beijo Luiza

  2. Primoca
    Que emoção ler esse texto e poder perceber um pouco do que vc esta sentindo e passando nesse momento tão especial da sua vida.
    Me deu vontade de estar ai com vc… Bem pertinho… Trocando, ajudando… Cuidando de vc!!!!
    Vai dar tudo certo… Tudo no seu tempo… estou longe mas meu coração esta com vc… Sempre!!! Te amo!!!

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