De onde a gente é

11 anos  em Zaragoza e esta é oficialmente a cidade onde morei por mais anos seguidos. Bem, se somo tudo, vivi mais tempo no Rio de Janeiro. Mas nesta cidade tive muitas idas e vindas. Nasci no Rio, mas em seguida nos mudamos para o Rio Grande do Sul e, ato contínuo, para o Amazonas (aliás, bem pertinho uma da outra). Volta ao Rio. Para alguns anos depois partir rumo ao Mato Grosso e em seguida à Paraíba. E volta ao Rio. Um aninho de intervalo em São Paulo e, adivinhem, volta ao Rio. Para ficar por um período um pouco mais longo e marchar outra vez, primeiro para Recife, Pernambuco, e logo um salto grande a  Zaragoza, Espanha.

Tantos anos na Espanha me deram o domínio de outra língua, que falo e escrevo muito bem (modéstia à parte), mas com o mesmo sotaque dos primeiros dias, que, por mais que me esforce, não consigo perder. 11 anos me deram uma família espanhola, me ensinaram a dormir a siesta (quando se pode), a comer com pão ao lado, a amar gazpacho (o mesmo que não sabia o era quando vi Mulheres à beira de um Ataque de Nervos, de Almodóvar, pela primeira vez). Mas além do sotaque que nunca perdi, tem coisas que não consigo aprender: ainda me visto mal para o frio, sofro com o frio (provavelmente por me vestir mal), com a falta do mar e da cidade grande para se perder. Sou carioca, ainda.

Por mais anos que se acumulem, somos de onde passamos nossa infância e de onde estão nossas referências. E sempre levarei comigo os carnavais dos bate-bolas do subúrbio, a brisa da barca Rio-Niterói, o 415, os cinemas do Estação. Sofrerei quando escute alguém falando mal da cidade, porque o Rio de Janeiro é como um filho, só a gente pode falar mal. E também como filho sinto orgulho quando alguém fala bem e confirma aquilo que todos sabemos: o Rio é maravilhoso.

Mas se somos de onde passamos nossa infância, então, não tem jeito: meus filhos são zaragozanos. São maños (como carinhosamente são chamados os que nascem aqui). Amam sua cidade e suas referências. Gostam do frio e do calor (do vento não). Da sua escola, da sua rua, das suas festas e do folclore local. Eu canto Jorge Ben Jor e Hugo diz que gosta de Enrique Iglesias. Eu falo em português e ele me pergunta:

– Na tua língua, como se diz isto?

E eu respondo:

– A língua não é só minha. Também é de vocês.

Mas não é. Ele está certo.

É curioso ser mãe de dois entrangeirinhos. Conhecer tão bem a duas pessoas, mesmo que suas referências não tenham nada a ver com as tuas. Ainda não chegamos na etapa em que eles sentem vergonha da minha forma de falar, mas eles sabem que a mãe fala estranho. Que é de outro lugar. Mas se penso bem, minhas referências também nao se parecem muito com as da minha mae, que veio do Rio Grande do Norte para trabalhar numa fábrica no Rio. E por ser de lá, também somos um pouco nordestinos.

Meu lugar é “pura memória”, como diria Caetano. Talvez nem exista mais. Mas ele ficou para marcar cada passo do caminho. Meu e deles, nem que seja um pouquinho.

 

 

 

 

Comentários

  1. Adorei o texto Rosane!
    As lembranças dos lugares da infância e adolescência são muito marcantes mesmo. São referências que não perdemos nunca, nos acompanham por toda a parte, a vida inteira por mais que abracemos uma nova cidade como nossa!
    Abraço,
    Adriana

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