Trabalhar por dinheiro

Uma das minhas alunas de fotografia me disse toda feliz , que não poderá estar na última semana de aulas, porque irá aos Estados Unidos trabalhar como faxineira durante o verão no Hemisfério Norte e, ao mesmo tempo, aprender inglês. Isto na mesma semana em que viralizou na internet brasileira o depoimento de outra jovem, mais ou menos da mesma idade, igualmente de classe média, contando que superou todos os preconceitos para trabalhar como atendente em uma loja de doces. Narra que descobriu como todo trabalho é digno e que tem a finalidade útil de ajudar-lhe a se manter. Mesmo assim, fez questão de explicar que a loja era de uma amiga sua e ela estava lá dando uma ajuda em um momento de desemprego.

Não sei se deveria me surpreender com o depoimento da jovem brasileira, afinal é esta a realidade da classe média no nosso país: trabalhar em loja, limpeza, garçom, entregador de pizza,  é trabalho para quem precisa. Coisa de subalterno. Quem não, vive de mesada, no máximo faz estágio. Trabalho de verdade é aquilo que se sonha encontrar no final da faculdade, do máster ou do que for, e será sempre algo sonhado, uma realização pessoal. A classe média brasileira, em muitos casos, espera a felicidade no trabalho. Bastante diferente da mentalidade de muitos espanhóis, que esperam simplesmente que o trabalho pague as contas e busca a felicidade fora dele.

E isto que nem estamos em país anglo-saxão, estes sim muito mais distantes da nossa cultura neste quesito. Com uma lógica do valor do trabalho e do dinheiro muito mais mercantilista e, ao mesmo tempo, muito mais prática. Na Espanha, dificilmente veremos alguma criança cortando a grama das casas vizinhas para juntar dinheiro e comprar uma bicicleta. Um pai dá dinheiro ao filho adolescente, não empresta, como é habitual nos países anglo-saxões. Aqui a proteção à criança e ao adolescente é bem maior. Mas é bastante comum que um universitário e um recém formado façam todos os tipos de trabalho para se manterem. Meu marido Nacho conta que seu primeiro trabalho foi empacotando brinquedos em uma loja durante a campanha de Natal. Depois disso, foi entregador de pizza por dois anos nos fins de semana.

Mas no Brasil ainda olhamos para este tipo de trabalho como algo exclusivo para alguém que não tem formação. Paga-se pouco, exige-se muito. O trabalhador, portanto, é alguém que nasceu para servir. Quase invisível dentro desta sociedade tão hierarquizada.

A relação que um espanhol tem com o trabalho se difere muito da brasileira. Fui educada para estudar e encontrar o trabalho dos sonhos, no qual seria feliz por fazer aquilo que gosto. Tive a sorte de estudar o que quis, ser jornalista, mas não fui tão feliz no trabalho como era minha expectativa. Assédio moral por parte algum chefe, excessivas horas extras sem pagamento, FGTS descontado, mas não depositado, competição dura entre os colegas, é esta a realidade que encontrei. Mas, como não nos pensamos como operários, e sim como realizadores de algo aparentemente importante, dificilmente estas e outras infrações se transformam em queixas formais.

Aqui o trabalho é visto como algo mais simples: aquilo que se faz para pagar o aluguel, a hipoteca, o supermercado. Pode ser que a pessoa faça aquilo que goste, mas não é tão comum assim. Um salário digno  permite ao trabalhador buscar um hobby fora do trabalho, fazendo cursos de tudo que existe. Na escola de fotografia onde trabalho encontro gente de todas as profissoes: médicos, bancários, operários da indústria, mecânico de carros, entre outros, e até jovens que querem ser fotógrafos profissionais. Sem dúvida, esta diversidade é o que mais gosto daqui.

Ainda não descobri qual das relações com o trabalho é mais fácil e mais tranqüila. Mas sem dúvida aqui não preciso explicar aos meus filhos que todo trabalho é digno e merece nosso respeito. Eles vêem isto diariamente.

 

 

Comentários

  1. Parabéns pelo texto, mas está difícil mudar esta mentalidade no Brasil, embora a avalanche de desempregados, teve um caso divulgado, uma menina de 13 anos, depois que os pais tiveram que demitir a empregada doméstica, denunciou os pais pq determinou que ela deveria arrumar sua cama e lavar as louças. …. fim da picada, os pais tiveram que comparecer em frente de um juiz, e qd chegou em casa nem pode dar uma boa sova….. É pra cabar.

  2. Muito bom é totalmente verdade. Aqui no Brasil o jovem que trabalha não teve opção. A classe média mesmo espremida não concebe a ideia de ver os filhos desempenhando certas funções ” menores”: é trabalho de pobre, trás um estigma que é alimentado pelo próprio povo. E que se reflete na maneira que muitas pessoas tratam os funcionários que desempenham essas funções. Na Europa e EUA o jovem trabalha pra viajar de férias, comprar um carro, ajudar a se manter e etc. E natural e faz parte do crescimento.

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