Terminar para recomeçar

A Hugo terminou o Jardim de Infância. Viva ele! Em setembro, meu menino de cinco anos (e meio, ele me corrige) começará uma nova etapa na escola primária. Foram três anos de educação infantil – como dizem aqui na Espanha – que correspondem a metade de sua vida. Três anos para Hugo é um mundo. Entrou bebê, saiu moleque. Para um adulto pode não representar muita coisa, mas para nós foi como se outra história se iniciasse. Aqui, mudamos e aprendemos todos.

Nossas dúvidas sobre a escola escolhida –  que contei aqui no texto

A melhor escola

– não acabaram neste tempo. Acho que sempre estaremos nos questionando sobre nossas escolhas, o que me parece sensato e não seríamos nós se não fosse assim. Aprendi muito. Uma delas é que quando um filho começa na escola, os pais também começam. Ele faz amigos, você também. Ele entra em uma comunidade, você também. Ele sai do casulo familiar, você também. Filho cresce, os pais podem pouco a pouco voltar a ter mais vida individual.

Para quem vem do Brasil, a escola de classe média é (quase) sempre privada e entrar para uma escola pública foi uma descoberta. Encontrar a diferença: de origem, de histórias, de línguas e até de etnias. Fazer desta diferença uma sorte na vida. Alguém disse que seria fácil? Não é. Mas também não é tão difícil assim. Basta ter um pouco de boa vontade. Posso dizer feliz que creio conseguimos que as diferenças tenham ficado entre os adultos, não entre as crianças. E acredito que isto se deve a que todos os adultos tenham se esforça para que fosse assim,  ao incentivar a convivência, ao trazer para o grupo os que estavam mais desagregados. Ao fazer do  grupo um aliado. Acho que no meio de tantas diferenças, descobrimos que somos todos pais bastante parecidos.

Tão parecidos que agimos igual quando foi preciso. Para celebrar o fim de ciclo, a professora organizou uma excursão a uma granja escola. Lá as crianças puderam ver e tocar os animais. Ajudaram a ordenhar uma vaca, a recolher ovos das galinhas, brincaram com os coelhos. Um dia mais que perfeito para a molecada. Mas, enquanto esperávamos o ônibus sair, a professora veio falar com um grupo de mães. Estava angustiada porque os pais de uma das crianças não havia pagado a excursão. Era barata, mas vivemos tempos de crise econômica. De desemprego. Por mais barato que fosse, um gasto “supérfluo” pode representar um problema no orçamento familiar. A professora não queria deixar um de fora. 22 não são 23.

Nós muito menos. Claro que a criança foi. O gasto foi dividido entre todos. E nenhuma criança ficou sabendo. Elas ainda nao sabem que existe a excessao. Para elas, estarem todos é o natural. A palavra solidariedade ainda nao é parte do seu vocabulário. Talvez porque no nosso universo protegido, eles ainda nao tenham aprendido quantas vezes seus pais tiveram que praticar a solidariedade para elas nao soubessem o tanto que precisamos desta palavra. Esta liçao para eles  ficará para a escola primária. Nós pais aprendemos no Jardim.

 

Comentários

  1. A escolha da escola e sempre uma decisão importante é muitas vezes não é fácil… A escola pública é sem duvida um desafio pra quem só conhece a realidade das escolas particulares. Pode ser um choque no início, mas o fato de todos serem iguais apesar das diferenças que você mencionou: de raça, cultura, crenças, grau de instrução dos pais, nível sócio econômico… No fim, todos são iguais, ninguém tem Vantagens ou privilégios e todos se engajam e trabalham pelo bem dos alunos: pais trabalham nas festas, arrecadam dinheiro, ajudam dedicando oarte só seu tempo; um bem muito valioso hoje em dia. Mas vale a pena!

    • Tem toda a razao. Foi um choque sim. Há pais que entendem pouco espanhol até. Mas todos trabalharam para fazer da escola um lugar de verdadeiro apredendizado. E nós aprendemos com eles. Pelo menos eu aprendi.

Comentar