Sai de mim, forasteira!

A mordida não era profunda, mas as piores cicatrizes nem sempre estão na superfície. Ser atacada por um cão, com menos de dois meses de casa nova em Singapura, me tirou o centro. A lesão tocou em outro canto, atingiu meu novo mundo, no qual eu havia começado a sentir um aconchego, a cada dia catando uma nova folha para acabar de preparar o nosso ninho.

O susto e a indiferença que senti diante do descaso do senhor proprietário do cão foram contrastados pela gentileza do casal singapuriano que recebe meus filhos duas vezes por semana para atividades de arte e natureza, na reserva florestal da cidade. João estava fora do país e foi ela quem ficou com Bento e Vicente, enquanto seu marido me levaria ao médico e à polícia. As palavras polícia, depoimento, processo, indenização, multa rondavam a conversa. E me deixavam nervosa. Eu só queria me sentir em casa e saber que o tal cão não morderia outro passante.

Não fui à polícia, no médico me aconselharam a escrever para um órgão do governo. Durante dias troquei e-mails com alguns funcionários de lá e um mal-estar me abatia. Um processo criativo, meu comigo mesma:  me sentia a estrangeira que mal chegara e se metera em processo, leis e uma possibilidade de briga com uma família local. A estrangeira que achava que na natureza se sentia em paz, mas que não foi bem aceita pelo animal local. A estrangeira pela qual o dono do cão não moveu um passo para ver se estava ferida. A insensata que não tinha certeza da cor do cachorro para depor com precisão. A estrangeira que se sentiu tão literalmente estrangeira, de fora, excluída, despertencida. A que pulou o muro, entrou na festa, não sabia se comportar e não foi bem recebida. A figura que exalava um incômodo com tanto sistema, com a pressão do que pode e do que não pode, na terra onde aparentemente tudo funciona na rigidez do pai severo. A forasteira.

No sétimo dia, a agente do governo para o qual havia escrito, Dona Daphne, me ligou dizendo que esteve na casa onde mora o cão que me atacou, me disse que eu ficasse tranquila porque o mesmo não tinha raiva, mas que o cachorro era um perigo à sociedade e que ela precisava tomar meu depoimento pessoalmente. Dona Daphne apareceu pontualmente na hora em que eu disse que poderia atendê-la, às sete da noite.

Passamos 45 minutos juntas. Não quis chá ou café. Tomou um copo d’água, me olhou nos olhos, olhou minha perna, me abraçou, pediu desculpas pelo que aconteceu. Encantou-se pela decoração da nossa casa. Conversamos sobre vida, mudança de país (ela também não é da terra), quis saber sobre o Brasil e como conseguíamos ser tão alegres e envolventes. Contou das Filipinas. Elogiou Singapura, o país que escolheu para viver há mais de 15 anos, e anotou todo meu depoimento com capricho. Pediu-me desculpas mais cinco vezes, em nome do governo, explicou que aquilo não era comum em Singapura, analisou meu machucado, me mostrou as marcas dos dentes e me disse que tive sorte, já que consegui escapar antes do bicho cerrar a boca por completo na minha coxa. E encerrou: “Um cachorro não merece viver atado a uma corda curta, na beirada do portão da casa. Este cão não sabe reconhecer onde começa e onde termina o seu espaço. Ele vive acuado, sob a constante sensação de ser ameaçado por qualquer um que passe na calçada. Ele não está bem acondicionado, por isso representa uma ameaça à vizinhança. E por isso mordeu a senhora. Aqueles donos não sabem o que fazer. Mr. Chong, que é o responsável pelo bicho, não poderá agora abandoná-lo em outro canto. Não poderá mandar matá-lo. Ele é  dono do cão e terá que aprender como cuidar do mesmo.”

Mr. Chong, que já pagou as minhas despesas médicas, terá que pagar uma bela multa ao governo. Além disso, Mr. Chong e seu cão desamparado farão um treinamento intensivo diário com um adestrador de cães durante um período de três meses. No final destes três meses, o treinador designado pelo governo fará um relatório sobre as evoluções ou não da relação de Mr. Chong com seu cão. Dona Daphne será responsável por acompanhar o caso pessoalmente por um período de seis meses. Ela fará visitas periódicas à casa dos Chong e também à vizinhança para que todos testemunhem sobre o comportamento de Mr. Chong e, quem sabe, do seu futuro melhor amigo.

No treinamento aprenderá que cachorro precisa sair de casa para passear, correr, se sentir confiante para confiar na autoridade do dono, se comportar em sociedade. Que dentro de casa ele precisa sentir-se acolhido, mesmo que seja no quintal. Que precisa de um espaço que reconheça como seu, seja uma almofada confortável ou um tapete, mas um perímetro onde ele possa se sentir em paz, seguro, protegido, aceito e compreendido em toda sua natureza e energia de cão.

Dona Daphne me acolheu, me ajudou, me entendeu. E enquanto falava dos direitos do cão, me transferia todos os direitos de me sentir em casa. Ela me devolveu a vontade de voltar a catar folhas e investir neste ninho. Porque, sem distinção de espécie, bicho de paz é bicho que se sente bem, acolhido, com a possibilidade do abrigo e clareza de direção. A forasteira foi para fora. Agora sou só uma brasileira de patas ‘tugas’ e asas balinesas, querendo pousar e sobrevoar as regras, mas de asas bem abertas, à vontade para ir olhar do alto do ninho a terra do leão*.

 

* Singapura, o nome original da ilha, pela qual é conhecida em boa parte do mundo (ao invés de Cingapura), é derivado do malaio, com origem no sânscrito, e tem no prefixo “Singa” o significado de leão e no sufixo “Pura” o significado de lugar.

** os nomes das pessoas citadas no texto foram alterados para preservar suas identidades.

 

Comentários

  1. Espero q esteja bem, como é bom ter amparo e ver ações p solucionar os problemas…um grande beijo …..sua forma de colocar os fatos, uma delícia de leitura…

  2. Que forma de escrever suave …adorei …poucas pessoas tem esse predicado . Não pare de escrever ,bebi cada palavra como água fresca .

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