Regar a semente e pendurar roupa no varal

Ando pelas ruas de Pisa olhando as sacadas no fim de tarde. Mulheres cansadas pendurando roupas no varal. Penso no olhar dolorosamente triste de Giada. Penso no meu olhar infantil dolorosamente triste quando meu pai não aparecia domingo para me “visitar”.

Giada não espera nunca. Ela tem 10 anos. Ela nunca viu o seu pai. Giada não é triste, é só  melancólica. Fala pouco, mas  gosta de dançar. Seu pai nunca a viu dançar. Disse para Giada: “Eu também sentia falta do meu pai quando era pequena, ele existia, mas não me via”. A menina me olhou com seus profundos olhos castanhos agradecida. Ela dá gargalhadas entres as amigas, come focaccia com uma mordidona, ela me parece tão bonita, quando dança, balança, mexe os ombros. Tão bonita a Giada…Mas seu pai nem a viu nascer, se foi, partiu, assim que soube que ela iria entrar na sua vida.

Hoje encontrei a Laura de manhã, ela é brasileira e está no fim da gravidez do seu quarto filho, tem 34 anos, magra, faz um curso de enfermagem e é muito ativa. Nunca teve coragem de aprender a dirigir. É muito dependente do marido, que é muito ciumento. Quatro meses atrás, ele conseguiu um trabalho em Milão e ele foi morar lá. Sua filha vai nascer e ele não virá. Comecei ajudando a levar e buscar seus filhos na escola aqui na Itália e ela virou minha amiga.

Laura não tem família aqui. Conta comigo e com as assistentes sociais de Pisa, que estão dando apoio nesse momento até Ginevra nascer.

Os irmãos da futura pequena Ginevra, de 9, 7 e 2 anos, estão em um abrigo para menores. Eu mesma os levei até lá com o acompanhamento da assistente social. Laura está com uma inflamação na coxa e na bexiga, mal consegue andar, não tem condições de cuidar dos filhos maiores. Espera solitária a sua filha na casa de dois andares na periferia de Pisa. Sonha que o pai das crianças volte para ficar com eles, mas até agora ele só manda dinheiro pelos Correios.

Como Nino, o pai de Mirko, 4 anos, que não se interessou em ver que rosto tinha o seu filho.

Como Nicola, que segurou nos braços Giuseppe quando ele nasceu. Hoje o menino tem 7 anos, mas não lembra mais do calor do abraço do homem que um dia amou sua mãe.

Estou na Itália e convivo diariamente com essas histórias. Pais que partem, mulheres que ficam.

A professora da minha filha conta que quando era pequena seu pai imigrou para trabalhar na Suíça e só aparecia no Natal. “Era uma festa, ele vinha cheio de brinquedos, chocolates, mas logo depois parecia um estranho na casa. Não sabia nada da nossa vida, descobertas, era como um fantoche”, conta a “maestra” Silvia.

Cada caso é só mais um caso. Cada olhar entristecido é só mais um. Psicólogos com quem trabalhamos aqui recomendam perdoar e seguir adiante. São crianças que provavelmente também não tiveram afeto adequado na infância – e reproduzem na vida adulta suas carências abandonando o que deveria ser cuidado, como o pezinho de tomate que a minha filha plantou na escola e trouxe pra casa. Todo dia ela rega, conversa, cada folhinha que nasce é festejada. Que a próxima geração cuide melhor dos seus frutos…

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