O menino dos olhões

Esta história que vou contar aconteceu há muito tempo. Há uns 20 anos. O nome dele começava com W. Esqueci se Watson, Wellington, Wagner, Walter… Vocês não vão me perdoar por este esquecimento depois que eu contar a história. Nem eu me perdôo.
Trabalhava como estagiária na Campanha Nacional pela Reforma Agrária, no Ibase, ao lado de Herbert de Souza, o maravilhoso Betinho (que certamente gritaria “Fora Temer!” se estivesse vivo). Éramos tão novos, eu, meu amigo Jomar, meu amigo Flavinho, que viria a se tornar meu compadre, Saliel e tantos outros. Depois que almoçávamos a deliciosa comida da Dona Irene, caminhávamos até a Praia de Botafogo para tomar um picolé na extinta loja Sears (onde hoje fica agora o Botafogo praia Shopping).
Numa dessas tardes de sol, conheci W. Ele veio me pedir um picolé. Paguei o picolé e começamos a conversar. Tinha uma casa ali perto no Dona Marta e outra bem distante dali, na baixada. Não ia quase à escola, apesar de seus 7 anos. Adorava picolé de manga e de chocolate. Me pediu para ficar mais com a gente, para nos acompanhar até a porta do Ibase. Eu deixei.
Ele foi andando com a gente até lá, conversando, numa alegria só. Descalço, negro, cabelo requinho, lindo, com uns olhões que brilhavam de alegria. Que olhões. Chegamos à porta e precisamos entrar. Ele pediu para eu ficar mais. Eu disse que não poderia. Ele pediu para me esperar na hora da saída, mas disse que demoraria. Ele insistiu. Eu fui firme. Precisávamos nos despedir ali. Ele continuou insistindo e eu, meio sem saber o que fazer, dei para ele uma nota de R$ 20 (o equivalente na época) para comprar mais picolés. Entrei e não olhei para trás.
Duas horas depois, a secretária do Ibase me chama e diz que tem um menino na porta à minha espera. Fui lá. W, com os mesmos olhões, chorava. De onde viera o brilho de alegria, saiam agora lágrimas e lágrimas de tristeza. A nota de R$ 20 estava rasgada em pedacinhos, toda molhada das lágrimas dos mesmos olhões.
Passou um ano e nos reencontramos. Ele num ônibus me viu e gritou: Tia Simone! Eu reconheci os olhões. Mandei beijos, sorrimos, ele tentou saltar do ônibus, eu tentei entrar no ônibus, não deu tempo. Nos despedimos. Meu menino W dos olhões mais lindos deve agora estar com 30 anos.

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