Mudando e se desapegando

Quem decide se mudar para outro país, tem sempre o desafio de decidir o que levar e o que deixar para trás. Perguntamos a algumas de nossas mães o que elas carregam e do que se desapegam. 
mudanca1Adriana Flora

Toda mudança, principalmente de país, traz vários desafios e exige  planejamento. Mas qualquer mudança é com certeza uma grande oportunidade para descobrir objetos esquecidos, redescobrir outros, que apesar de esquecidos tem valor sentimental e fazem parte da sua história. E como revirar os armários é inevitável, a cada peca de roupa, sapato, bolsa que encontro costumo fazer algumas perguntas a mim mesma:  “quando foi a última vez que usei isso? ainda me serve? vou sentir falta? eu preciso disso?” Depois de respondê-las fica mais fácil decidir o que fazer com cada coisa: dar, doar, vender ou levar comigo – se eu não estiver preparada para me separar de determinado objeto por mais inútil que ele seja – não dá pra ser prática e objetiva o tempo todo!

Há um mês comecei aos poucos a remexer as minhas coisas. De lá pra cá, já fiz quatro “limpezas” nos armários: roupas, brinquedos, mais roupas e hoje mais roupas e sapatos. Comigo é assim, não consigo me desfazer de tudo de uma única vez, preciso de um tempo para ter certeza de que não vou me arrepender de me desfazer das coisas. Portanto hoje, faltando apenas dois dias pra minha mudança, saíram mais quatro sacolas de casacos, sapatos, brinquedos, livros.

É a quinta vez que passo por esse processo.

Pra mim é libertador deixar pra traz muita bugiganga, tanta coisa que acumulo sem perceber e nesse processo ainda fazer alguém feliz.

Dessa vez, consegui convencer minha filha de 14 anos a vender seu unicórnio de pelúcia. O bicho, um trambolho imenso que ela costumava montar, estava sem uso, atravancando metade de um armário. Minha filha concordou em se desfazer do tal unicórnio e o vendemos pra duas menininhas de cinco e sete anos, cujos olhos brilharam tanto ao verem aquela “preciosidade” que queriam sair rapidinho da minha casa levando o unicórnio. Acho que estavam com medo da minha filha mudar de idéia! Depois que saíram, minha filha disse: “é, acho que vai ser muito legal pra elas!” E essa sensação é gratificante! Sem contar que ainda me pagaram R$ 50,00 quando eu ficaria feliz em dar a elas até um pouco mais, só pra me livrar da Rosalee (sim, esse era o nome do unicórnio).

Beatriz Golzi

Mudar de casa, escolher o que vai, o que fica e o que sai é repriorizar a vida e diz muito sobre o que queremos construir nos próximos passos. Quando saímos do Brasil para Portugal, fizemos nosso primeiro vende tudo. Hoje, grande parte das nossas ex-coisas mora entre amigos e família, pessoas queridas que conheciam nossa casa e história e ficaram com um pouco da gente perto deles.

Mas confesso que chegar em Portugal e ter que comprar uma casa inteira, escolher dos garfos aos armários, ao contrário do que muitos podem imaginar, não foi uma delícia.

A gente gosta de fazer casa aos poucos, de deixar a casa crescer com a gente, de ter móveis com histórias dos outros e das nossas passagens.

Mudamos para Bali e decidimos não vender nada, armazenamos tudo em um container em Lisboa e passamos dois anos com quatro malas de 30 quilos. Roupas simples de verão, chinelos, um sapato para cada um e brinquedos escolhidos a dedo, isto era tudo o que era nosso. Dois anos depois, reencontramos a nossa mudança toda, que viajou de Portugal para Singapura, foi uma delícia, mas também um pequeno pesadelo. Não tinha ideia de quantas milhares de pertences excessivos a família tinha acumulado em 3 anos de vida em Lisboa. Doamos caixas e mais caixas de roupas, móveis e utensílios de cozinha.

Mais interessante foi descobrir que, enquanto eu e João acumulamos supérfluos, cada brinquedo que foi reencontrado foi comemorado por horas pelas crianças. Bento era capaz de lembrar quem tinha dado o livro tal, Vicente encantado, dizia: “nunca vi uma casa com tantos brinquedos! Isso tudo é nosso?”. Já estamos há quase três meses de casa nova. Ainda hoje, tenho que espiar o que fazem aqueles dois tão silenciosos fechados no quarto. Já os descobri produzindo uma floresta amazônica, inteiramente coberta dos bichos brasileiros, enquanto um andava de quatro fazendo às vezes da onça pintada e outro morria de rir. Já tropecei em cidades de prédios altos, ao lado de uma fila de carros sem fim, invadi um safári na África, mas me distraí e também recebi de brinde um cabeleireiro de tesouradas ligeiras e profundas prestando serviços ao irmão. A única vantagem, é que a vassoura tamanho infantil também veio de navio e na hora de limpar a casa, coberta de cabelos, eles também estavam com a mão na massa, nem sempre ajudando, mas com instrumentos que o transportam para uma vida lindamente imaginada.

 

mudanca2Luciana Doneda

Eu me mudo há tanto tempo que me transformo a cada vez que encho malas e caixas. Costumo esquecer logo quando dobro a primeira esquina tudo que era material que deixei pra trás. Ficam afetos, firmes e fortes, gente fascinante que mesmo com a distância e o tempo me fazem sorrir, chorar, simplesmente lembrar. Poucas vezes levei móveis nas mudanças,  nas internacionais, nunca. Não compensam. E assim que chego na casa nova, provisória ou não, espalho fotos das crianças, coloco livros na estante, encho a geladeira de comida gostosa.

 Entro imediatamente no ritmo lar-doce-lar. Não me lembro de ter sofrido ao deixar uma casa. Mas sinto falta das cidades onde morei, das praças, teatros ou mercados. A confeitaria, o café, a pizza. Mudanças são sempre desafios e, no fundo, sei que sempre me ajudaram a enfrentar melhor meu futuro.
Pri Ali
Quando eu vim para a Australia, a mudança era temporária, seriam apenas seis meses, e por isso, vieram apenas duas malas, que ao longo dos anos foram se estendendo para sete malas….
Não precisei me desfazer da “cama mesa e banho”, foi uma mudança silenciosa, para não assustar. Porém, ao longo desses quase onze anos de Austrália, eu mudei de casa oito vezes, e, em cada mudança, aproveitava pra renovar a energia, me desfazer do empoeirado, pra recomeçar uma etapa nova.
Nossa última mudança foi para a casa que chamamos de nossa, nossa primeira casa, onde podemos pintar, furar paredes, inventar e reinventar. As mudanças são cansativas, mas muito revigorantes e eu particularmente adoro a sensação de poder começar de novo a cada mudança.
Rosane Marinho
Minha mudança para a Espanha está vindo pouco a pouco, há uns dez anos já. Hahahaha! Quando decidi vir para cá, não sabia se era definitivo e não trouxe meus móveis. Aliás, mesmo que soubesse, não trairia. Não tem nenhum sentido pagar 6 mil euros por uma mudança internacional para trazer móveis Tok Stock. Alguns eu dei, outros eu guardei na casa dos pais (parece até música do Caymi) e trouxe o máximo que me permitia o avião: três malas de 30 kg.
Nestes 90 kg de malas meti o que achei que era o mais importante: música, livros, material de trabalho. Há 10 anos a música digitalizada ainda estava começando e uma das minhas malas era basicamente de cds de música brasileira. Tirei das caixinhas, mas mesmo assim ocuparam um super espaço, que até hoje ocupam e não sei mais onde guardá-los.
Aprendi com minhas mudanças (foram muitas na vida, sou filha de militar) a me apegar a poucos objetos.
Apenas os livros merecem este carinho. Os livros de fotografia, caros e pesados, vou trazendo pouco a pouco da casa dos meus pais. A cada férias, vêm dois na mala. Acho que já não resta nenhum. Mato a saudade dos meus antigos quadros na casa da minha mãe. Assim, ficamos sempre neste ciclo: a nova vida com a saudade presente. Além dos livros, só uma coisa fiz questão de trazer: minha rede. Não existe casa minha sem uma rede na varanda. Mesmo que lá fora esteja zero grau.

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