Elena, fale comigo!

Foram dois meses com Elena Ferrante. Não sei nem se ela existe. Se o nome dela é esse mesmo. Mas por dias e dias, era a voz que eu mais ouvia, quem me fazia companhia nas horas de silêncio, quem preenchia os meus momentos vazios. É o nome que assina os livros, mas não sabemos se é realmente o seu nome. Comecei com “Os dias do abandono”, as semanas que seguiram após a decisão repentina do marido da personagem do livro abandonar a família, ela, dois filhos, para viver com uma mulher vinte anos mais jovem. O clássico. Mas a narrativa de Elsa é materna. É da mulher que é mãe e filha. Que precisa prestar contas com tudo o que estudou, com a necessidade de trabalhar, produzir. Elena, fale
comigo.

Continuei. Como a personagem do abandono se virou para ser mãe, levar na escola, preparar comida, levar o cachorro para passear e procurar emprego, tudo ao mesmo tempo, de repente, do nada. Dias de abandono de uma mãe, do retorno à infância em Nápoles, uma vizinha também abandonada gritando pelas escadas, desesperada, sofrendo a morte de quem é vivo. “Nunca passarei isso, me prometo”, disse a menina ainda de tranças. Elena Ferrante destrói e reconstrói essa mãe, que supera o trauma carregando a dor como um prêmio para o crescimento.

E assim Elena foi se chegando. Ficamos próximas. Li uma entrevista dela no jornal “la Repubblica”, ela explicou a fome que as mulheres sentem para compreender o mundo, revirar a história, encontrar significado. “Virar algo”. Ser. Um verbo que é uma obsessão. “Eu quero ser”. Mas o quê? Sem um objeto, uma verdadeira paixão. Virar mãe? Casar? Emprego? Dinheiro? Sucesso? Ela precisava se tornar algo, adulta, Wendy de “Peter Pan”.

Eu sou Ish e ela é Isha’h. O homem e a mulher. Principalmente na palavra, ela é somente um sufixo, a mulher que deriva da costela do homem. Ela não é o Outro, ela é parte dele. Elena Ferrante fala sobre o abuso e uso do corpo feminino, em “L”amore molesto”, a violência de não ser dono do próprio corpo. Antes de querer ser, a mulher precisaria tomar as rédeas do próprio corpo. Sempre Nápoles, sempre a precariedade da vida.

E por fim cheguei na trilogia. “A Amiga genial”. A histórias de duas amigas, da infância com a primeira boneca e a leitura de “Piccole donne”(com o terrível título no Brasil “Mulherzinhas”) nas escadas do prédio onde moravam em Nápoles. Ser menina, querer estudar, virar adolescente, manobrar o corpo por entre o risco do abuso e a descoberta da sexualidade. Relações desgastadas com as mães incompreensivas. Quem eram aquelas mães? Anos 60. Lila e Lenù, as amigas crescem juntas. São três livros até agora, cada um com mais de 300 páginas, contando o cotidiano, as conquistas, derrotas dessas duas mulheres.

O abuso do corpo, a luta para estudar, os casamentos feitos com amor que se tornam abusivos com a convivência. “Ela pode fazer o que quiser desde que não atrapalhe a minha vida”, diz o marido de Lenù, um professor universitário. “Se você não me obedecer vai se arrepender”, diz o marido de Lila, um comerciante semianalfabeto. Elas se tornam mães. No que eu me tornei? Perguntam, perguntam, perguntam de novo. Perdidas na própria teia, estão em estado de quase abandono da existência, mulheres quase mortas, mas que precisam seguir, pelos filhos. Uma ode à maternidade real, histórias de quem foge e de quem fica.

Acabei o terceiro livro. Elena Ferrante se calou. Elena, fale comigo!

Comentários

  1. Maravilhoso teu texto. Li Elena Ferrante de um jeito inesquecível. Travei minhas costas, não conseguia andar. O excesso de peso pós maternidade me caiu errado, de uma vez só. Travei. Tinha ido à livraria dois dias antes. Lá encontrei esse exemplar. Queria ler uma autora que havia sido traduzida para o inglês, visto que sonho com a mesma proeza. Elena. Me soou latino, italiano. Abri o livro e era. A fala da personagem Lenú, brigando com o marido no pós parto. Fechei o livro e comprei. Seria meu primeiro romance pesado em inglês. Até aqui, só não ficção rondava a vida nessa língua estrangeira. Li as 400 paginas em menos de 40h. Foram as horas sentadas obrigatoriamente enterrada no sofá que mais rápido me passaram. Quis saber tudo sobre ELena…mas ela não quer. Obrigada por contar tuas histórias da Italia real. Um beijo do Canadá, Eliana

  2. Eliana, muito obrigada pela tua impressão, pelo teu mergulho nesse livro, por dividir comigo. Estão descobrindo lá na Itália quem ela é, apesar de ela não querer. Vou escrever sobre isso. Beijos e que a vida seja cada vez mais leve.

  3. Sim! Li essa matéria no NY Times e depois uma no The Guardian metendo o pau no cara que foi atrás da informação como se ela não tivesse o direito de ser anônima. O que importa né…ela disse um dia que se fosse descoberta continuaria escrevendo mas não publicaria mais. Uma perda. Abração!!

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