Curtinha

Estávamos na Barra da Tijuca, eu e minha amiga Ana Cristina, amizade de tempo recente e intimidade antiga. Nos conhecemos na Pós-graduação em psicopedagogia, que fazemos juntas no Pro-Saber. Rumo ao trabalho de grupo, numa quinta-feira chuvosa e bem fria, fria pra carioca e pra europeu também, paramos num sinal.
Veio o menino, pé descalço, bermuda, sem blusa, pegando chuva e jogando bolinha no sinal. Devia ter uns 15 anos. Sorriso largo. “Tia, me arruma um casaco.”
Eu no volante, Ana Cristina no carona.
(Me perdoe a pressa).
“Não tenho casaco, tenho apenas dois reais. Toma”, eu disse.
Ana Cristina pegou um papel com um escrito atrás. Perguntou ao menino:
“Você sabe ler?”
“Sei sim, tia.”
(Tanta coisa eu tinha a dizer)
“Então leia. É um mantra poderoso. Do budismo. Vamos repetir juntos:”
“Nam”
“Nam”
“Mioho” (fala-se miorrô, e ele dizia miojo)
“Rengue” (o erre é bem vibrante, e ele repetia)
“Kyo”
O sinal fechado. (Por favor não esqueça). E ele tentando aprender o mantra. Rindo. Se divertindo com minha amiga que tentava ensiná-lo.
(Vai abrir, vai abrir)
Ana disse: “este mantra é muito poderoso. Pode mudar tudo na sua vida”.
Ele deu um sorriso triste. Abriu a boca e escancarou o buraco, logo na frente: faltava um dos dois dentes.
“Será que pode mudar isso aqui também?”

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