Alemanha: a primeira mudança a gente nunca esquece

Lembro como se fosse hoje a dificuldade que foi tomar a decisão de me mudar para a Alemanha, mesmo sabendo que seria por apenas dois anos. Significava parar de trabalhar, encarar a Alemanha sem falar uma palavra de alemão e de quebra eu tinha apenas três meses de casada. Ainda estava me acostumando com a nova vida, fazendo ajustes aqui e ali, tropeçando em conflitos de interesse que todo casal recém-casado encontra.

Não foi uma decisão fácil. E se não der certo? E se eu não me adaptar? E se quiser voltar? E se afetar o meu casamento? E se, e se…

Fui com um frio na barriga, apostando na minha decisão, confiando muito no meu marido… Foi uma aposta. E não foi fácil! Pra mim, que nunca havia saído do Brasil, que nunca tinha fritado um ovo na vida, que nem minha própria cama arrumava, era um desafio e tanto.

No início, me dediquei a aprender alemão: tinha que aprender o mais rápido possível. Fazer compras era um pesadelo. E o lixo?  Praticamente tudo se recicla. As idas ao depósito de lixo eram uma expedição, um aprendizado constante: rolhas, CDs, metal, vidros (marrom, verde, transparente), papel, plástico… Cada coisa no seu container. E tinha o “carinha” fiscalizando se eu estava separando tudo certo.

No início era um perrengue atrás do outro. Entramos na Ikea para escolher todos os móveis do nosso primeiro apartamento. Por alguns instantes pensamos ter comprado e não apenas escolhido. Pânico total! 

Depois fomos apresentados ao sistema de comunicação alemão: os bilhetinhos. Muito eficaz, por sinal! Eles escrevem uma mensagem curta e direta geralmente dizendo que você fez algo errado e que da próxima vez… E  vale pra tudo: barulho excessivo, esbarrão da porta do carro no carro ao lado, carro mal estacionado etc. Aprendi  que tinha que ser mais séria, menos sorrisos, ou era tratada como idiota. Ah, e a reclamar. Se você reclama, eles te respeitam. Muito bom poder reclamar e ser respeitado e não o contrário, como aqui no Brasil. Um vizinho que  nunca me cumprimentava, passou a me cumprimentar, a segurar a porta pra mim, se tornou super atencioso após eu deixar um bilhetinho na porta dele reclamando do barulho de uma festa kkk! Aprendo rápido!

Fiquei encantada com a organização, a limpeza, a segurança. E incomodada com a secura, a frieza, o frio e a escuridão. Tive uma depressão, mas que passou logo; dei um jeito de me “enfiar” numa academia de ginástica. Nunca malhei tanto na minha vida! E meu marido foi muito companheiro. Aliás fomos muito companheiros um do outro. Nossa cumplicidade só aumentou e acho que nosso casamento floresceu. Viajávamos muito, passeávamos e tínhamos muito tempo juntos.

Lembro de estudarmos juntos para a prova de direção em uma apostila em Português de Portugal. As vezes parecia que estávamos lendo alguma piada. Só não foi divertido tomar pau na primeira prova prática de direção após 12 anos dirigindo no trânsito caótico do Rio de Janeiro. Fiquei indignada!  Bom, mas passei na segunda tentativa! Conhecemos uma Filipina que só passou na sétima tentativa!

Os dois anos se estenderam e no terceiro ano resolvi engravidar. Minha filha nasceu em Nuremberg de cesariana, após 48 horas de espera e 11 dias de atraso. Enquanto eles tentavam de tudo para induzir meu parto, eu ouvi cinco bebês nascerem. Sem comentários! Talvez por isso minha filha seja filha única… E depois disso tudo ainda nasceu com pneumonia: porque será? Foi um estresse enorme. Vê-la recém nascida, cada dia com uma agulha enfiada numa parte do corpo. Assistir uma médica assistente tentar e não conseguir fazer o acesso para administrar antibiótico na veia, chorei de raiva. Não gosto de lembrar disso. Após 12 dias, Julia pode ir pra casa conosco e ficou tudo bem. Era um bebê tranquilo, que dormia a noite inteira e eu agradecia por isso.

Pra minha surpresa me virei bem com mãe de primeira viagem e na Alemanha. Ia me virando.

Quando ela cresceu um pouquinho, meu marido que já jogava tênis me incentivou a aprender. E eu comecei a fazer aulas com a intenção de um dia podermos jogar juntos. Hoje, o tênis é o esporte da família, e um hobby que nós, como casal, compartilhamos.

Não foi fácil. Mas aprendi muito sobre mim.

Por exemplo, que sou muito mais forte do que eu imaginava na época. Lógico que passamos alguns apertos, fiquei muito chateada com o meu parto. Mas quando olho pra trás também temos muito do que rir: que tal entrar numa sauna mista sem saber que era mista??? Estar lá sozinha com meu marido e sermos surpreendidos por um casal de idosos nus, visivelmente incomodados por estarmos usando roupas de banho. Coisas de marinheiros de primeira viagem…

Foi uma experiência incrível, tanto que anos depois voltamos a viver na Alemanha uma segunda vez. Meu marido e minha filha tem agora passaporte alemão. Mas defeito todo mundo tem! Então o primeiro passo para uma mudança dar certo é se concentrar nas coisas boas. O ser humano se adapta a tudo!

Comentários

Comentar