Eu por mim

O grande jornalista Marceu Vieira escreveu este ótimo e divertido texto

Já que ninguém me entrevista…

(se você não conhece o blog do Marceu, você não sabe o que está perdendo), em que ele se auto-entrevista. Responde à perguntas que ele acha que deveriam ser feitas, mas que nunca fizeram ou que fizeram, mas estavam todas dispersas pelo mundo. E eu, na maior cara de pau, copio a fórmula e tento passar adiante um pouco da experiência de ser mãe de dois brasileirinhos em outro país. Algumas já respondi por aqui, outras acho que ainda não. Então aí segue a entrevista exclusiva minha comigo mesmo.

– Rosane, o que é mais difícil, ser mãe no Brasil ou na Espanha?

Não, tenho a menor ideia. Nunca fui mãe no Brasil. Sou tia, amiga, prima… mas mãe não e, definitivamente, não é a mesma coisa. A perspectiva muda totalmente. Ser mãe é difícil em todos os lugares e, creio, que cada país tem suas vantagens e desvantagens. Se por um lado aqui me sinto segura, não tem assalto, violência, por outro, não tenho minha rede de apoio familiar. Não tenho minhas irmãs e sobrinhos para fazer parte da tribo. Não tenho os aniversários e os churrascos com os amigos para trocar ideias, nem aquela outra mãe amiga que leva teu filho ao cinema para você descansar um pouco. Tenho muita sorte de contar com a família do Nacho, mas me dá muita pena que meus filhos cresçam longe da família brasileira. Por isto as férias no Brasil são tão importantes para a gente.

Enfim, não sei se sentir-se seguro compensa esta perda.

– Mas qual é a melhor coisa de ser mãe na Espanha?

Acho que contar com saúde e educação gratuita. Saber que mesmo que você passe o maior perrengue financeiro, pelo menos isto está garantido por lei pelo Estado. É um grande alívio para qualquer família.

Também é muito bom saber que teu filho vai conviver com crianças de todas as origens. Penso que é a melhor forma para que não existam preconceitos.

– Que diferenças você vê entre as crianças brasileiras e as espanholas?

Não gosto muito de perguntas genéricas, porque depende muito de com quem você convive, mas a única diferença que arrisco é que vejo os meninos e meninas espanhóis mais independentes que os brasileiros de classe média. Simplesmente porque não tem outra opção. Como aqui não existe babá, com mães e pais que fazem tudo eles mesmos, obriga às crianças a aprenderem a se virar desde cedo. Comem sozinhas, se vestem sozinhas, dormem sozinhas, isto desde os três anos e, no caso da minha filha caçula, até antes.

– O que você diria para uma pessoa que será mãe, ou pai, agora?

Que tenha paciência e confiança. Quando eu estava nesta etapa, só ouvia as pessoas dizerem para aproveitar, porque passa rápido. E é verdade, passa rápido mesmo. Mas eu não conseguia aproveitar muito, porque estava eternamente cansada. Dormindo muito pouco. O primeiro ano de um bebê é muito exigente física e mentalmente para a gente aproveitar de verdade. Para quem está ou vai entrar nesta etapa: muita paciência que é só isto mesmo, uma etapa. Confie que outras virão, com novos problemas e novas alegrias.

– O que você não gosta da Espanha?

Do frio, é claro. Na verdade, aqui nem faz tanto frio assim se vemos somente a temperatura. Na média, passamos o inverno entre 8º e 10º C de máxima. Mas é looooongo. Muito longo. Começamos a usar o casaco em outubro e tiramos, com sorte, em maio.

Também aqui sinto que as pessoas não gostam tanto de crianças quanto no Brasil. As relações são mais formais. Há menos espaço para o imprevisto, para improvisar.

– Quer dizer que você vive em um lugar seguro, com educação e saúde grátis e ainda encontra do que reclamar?

Pois é… saudade é uma m… mesmo.

– Entao, você voltaria para o Brasil agora?

Ai…que pergunta…pela família e pelos amigos sim, agora. Para que meus filhos aprendam a gostar de mate na praia. Claro, hoje mesmo. Mas para conviver com este governo ilegítimo, com o retrocesso, com o avanço na religião no Estado, nao, obrigada. Mas vai passar, né? Tem que passar. Nao quero ser exilada. Prefiro ser apenas uma imigrante.

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