Uma grande bola de bobeira

Tudo começou com um pão. Duas fatias de pão e uma fatia de queijo. O dia começando a nascer. Apenas começando. A mesa do café da manhã estava posta e Joana, a mãe, entregou ao filho Davi, cinco anos, duas fatias de pão e uma fatia de queijo depois do pequeno ter comido um belo pote de iogurte com cereal. Virou-se e foi lavar a louça ficando de costas para o filho. Davi colocou a fatia de queijo entre as duas fatias de pão e quando levantava o sanduíche levando-o até a boca o queijo escorregava pela parte contraria. A cena se repetiu quatro vezes sem sequer uma mordida de sucesso. Davi mostrava-se bastante irritado. De braços cruzados e sobrancelha franzida disse repetidas vezes que não queria mais comer o pão. Joana parou de lavar a louça e foi calmamente até Davi com toda a habilidade de uma mãe que zêla o filho, agachou, olhou nos olhos de Davi e disse:
Joana – “Meu filho, qual é o problema? Eu não estou entendendo”.
Davi – Esse pão não dá para comer. Não quero esse pão!
Joana – Como assim não quer o pão. Qual o problema meu filho?
Davi – Não dá para comer!!! Não quero esse pão!
Joana – Então filho deixa para mim que eu guardo e como amanhã.
Davi – Não!!! Você não vai comer meu pão.
Joana – Meu filho, você tem um pão e queijo gostoso bem na sua frente. Tem criança que tem pão duro e tem criança que nem tem pão pra comer no café da manhã. Eu não estou entendendo qual é o problema.
Davi – Não dá para comer esse pão! Não dá!!!
Joana – Bom filho, se não dá, a gente guarda.
Davi – “Ahhhh!!! Você não vai comer esse pão!!! Você está me ouvindo?”, grita Davi levantando da cadeira, já em pé, com a mãozinha na cintura e sobrancelha ainda mais franzida.
Joana – Davi, filho, olha para mim, olha no meu olho. Eu não estou te entendendo. Cadê aquele menino educado que mora aí dentro?
E o pão ia crescendo. Já durava cerca de vinte minutos de pão para lá e pão para cá. E do mais alto do meu conhecimento – com os pés no céu, a cabeça no chão e o coração no que estava acontecendo – eu não estava entendendo. Parecia um momento de decisão simples: “se quer o pão come e se não quer o pão não come e acabou”. Fim. Não dava para deixar um pão crescer tanto assim. Mas era o começo. Aprender que conhecimento não é compreensão. Desconstruir nossas certezas, repensar conceitos e sabedoria. Sem julgamento. Um processo de ampliação.
Joana – Filho, esse menino que acabou de gritar não é o Davi o menino educado que é meu filho. Eu nunca falo assim com você e não estou entendendo de onde está vindo tudo isso. Estou vendo muita coisa aí que não é o Davi. Vamos pegar tudo isso e fazer uma grande bola de bobeira? A gente está precisando jogar ela pela janela. O que você acha?
Davi – Uma boa ideia mamãe.
Joana – Então capricha e pega tudo que tem aí que não é de Davi e vai colocando na bola. Tem que tomar cuidado para não acertar o esquilinho, certo? Essa bola pode ficar tão grande que pode acertar ele e machucar.
Davi – Mamãe, acho melhor a gente jogar ela na rua que eu não quero machucar o esquilinho. Vamos jogar ela na rua?
Joana – Ótimo filho! Vamos jogar na rua. Pega tudo, vamos juntar tudo nessa bola, não vamos deixar ficar nada. O que vamos colocar aí nessa bola?
Davi – Grito.
Joana – Boa filho! Tinha um menino que não soube conversar com a mãe e gritou.
Davi – Isso! Menino que fala feio com a mãe.
Joana – Pronto, está na bola. O que mais?
Davi – Ficar irritado com o pão mole e queijo que pula do pão.
Joana – Ah… Tem uma informação nova aqui bem importante. Você achou que o pão estava mole e que o queijo pulava do pão. Por isso você não conseguiu comer?
Davi – Sim.
Joana – Estou começando a entender melhor. Ficar irritado não é o problema filho. O problema foi o que você fez quando se sentiu irritado. O problema foi o seu comportamento. Lembra que a mamãe ensinou que a gente sente muitos e muitos sentimentos e que isso é bom. O problema é o que a gente faz quando a gente sente algo que incomoda, quando sente raiva, quando está irritado.
Davi – Então mamãe pode ser “menino sem paciência” para a gente colocar na bola?
Joana – Isso filho! Isso! “Menino sem paciência! Coloca aí na bola!”. E quando sai o menino sem paciência filho a porta abre para entrar o menino com paciência que poderia ter falado: “mamãe, esse pão está mole e quando eu seguro o queijo escorrega e não consigo morder, você pode me ajudar?”.
Silêncio.
Davi – Pronto mamãe, pronto! A bola está pronta. Olha como está pesada!!!
Juntos carregaram a grande bola de bobeira até o portão da casa e a quatro mãos jogaram ela na rua e assim ela se foi. Foi a bola de bobeira e veio o menino educado, Davi, dizendo que talvez resolveria o problema pegar uma faca e cortar o pão mole e que em pedaços menores daria para comer. E quase num passe de mágica o grande sanduíche de duas fatias de pão e uma fatia de queijo se tornou vários pedaços de pão. O milagre da multiplicação dos pães. Davi brilhou e comeu todos os pedaços de pão.
Entendimento de mãe para filho. Estar vulnerável. Para dentro e para fora. A vulnerabilidade que traz a delicadeza de cuidar e que nos torna corajosos para criar, para aprender, para ensinar. Para ser mágico e trazer a fantasia. Ter sempre um pozinho de pirlimpimpim para alimentar a nossa alma da imaginação.
Todos os pais precisam manter a infância dentro de si. Afinal não podemos esquecer que, por tantas vezes, são os pais que precisam fazer uma grande bola de bobeira para jogar fora.

 

Ana Beatriz D. Chamati é psicóloga, mestre em análise do comportamento, especialista em atendimento infantil e orientação parental, professora e coordenadora de cursos de pós-graduação no Núcleo Paradigma. Possui dez anos de expêriencia clínica na cidade de São Paulo e atua também em escolas. Atualmente está finalizando seis meses de trabalho voluntário na Green School, Bali, Indonésia e retornando para o Brasil.

Comentários

    • Oi Carolina, td bem? Eu não tenho filhos =]. Sou psicóloga especialista em atendimento infantil e orientação parental e escrevi o texto baseado em situacoes que vivo com as crianças no meu trabalho, no dia a dia, e no meu conhecimento na área. Um abraço para você, Bia

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