Um triângulo das bermudas. Meninos imigrantes na escola italiana

Youssuf só fala francês e Anderson só entende português. Youssuf tem 13 anos e veio do Mali, Anderson até os 12 anos morou no Brasil. Hoje passei parte da minha manhã com os meninos tentando resolver um problema de um triângulo nada amoroso. O que os trouxe à Itália foi o amor. Mas aqui eles precisam superar o grande jogo da vida, a matemática, resolvendo o teorema de Talete, filósofo grego que resolveu calcular a altura de uma pirâmide sem subir lá no alto, usando um triângulo formado com a sombra do sol. E nesse jogo o coração conta pouco. Desenvolver o raciocínio e a capacidade de abstração em meninos cuja vida real tem sido uma equação em que seno ou coseno remetem ao seio da pátria abandonada e da sua língua que se torna desnecessária pode ser doloroso.

Não é fácil a inserção de imigrantes adolescentes nas escolas. A linguagem determina a forma como nos vemos e expressamos nossa identidade. Ter a própria língua negada e substituída, sem afeto agregado, é um processo de triangulação da existência que nem a cartografia pode ajudar. Entender os triângulos é essencial para Youssuf e Anderson nesse momento. “Os triângulos são muito úteis individualmente, mas funcionam muito bem em equipe”, tento demonstrar através dos cálculos de mapas, da criação do GPS, o navegador que se utiliza do cálculo de senos e cosenos fornecidos por satélites para identificar onde estamos e onde queremos chegar. Eles me observam com um fascínio místico. Estão interessados em entrar na equipe, fazer parte da turma. Mas vão ter que antes aprender a calcular os seus próprios triângulos.

Há dois mil anos os cientistas usam tábuas trigonométricas para calcular, por exemplo, a circunferência do planeta Terra. Expliquei para Youssuf e Anderson que Eratostene, quando era diretor da biblioteca de Alessandria, capital do Egito na época grega, usou um poço e um bastão para fazer os seus cálculos grandiosos sobre o tamanho do mundo. “Eu poço usar essa equação para calcular a distância entre a Itália e o Brasil?”, pergunta o adolescente moreno de olhos puxados, nascido em Porto de Galinhas, no litoral pernambucano. Filho de um pai alcoolatra que abandonara a mãe quando ele tinha 5 anos, Anderson é forte e grande. Um italiano passeando na praia conheceu sua mãe, que trabalhava em um restaurante da orla. Eles viveram um romance durante as férias dele no Brasil. O italiano voltou, mas o coração ficou. A mãe, no triângulo, não podia partir e deixar para trás Anderson. Um dia, como um meio-dia de um dia de um solstício de verão, não tinha sombra, o cálculo da distância diminuiu e Anderson e sua mãe vieram morar na Itália.

Mas Anderson não sabe ainda bem o italiano. Assim como Youssuf. Precisam de um mediador linguístico que os ajude a conquistar seus lugares de vértices de um triângulo que representa a possibilidade de ver além, como fez Pitolomeu ao identificar nessa forma geométrica de três lados a possibilidade calcular distâncias ainda maiores, como as interplanetárias. O triângulo foi o primeiro telescópio da humanidade. E Youssuf diz que sente falta do seu céu, das suas estrelas, no vilarejo africano onde ficou a sua mãe. O pai do menino imigrou para a Itália há três anos, nunca mais teve condições de voltar, apesar do amor que sente por aquela garota que escolheu para ser a mãe do seu filho. Agora que ele cresceu, os pais decidiram separar a hipotenusa mais uma vez do triângulo de amor que os une. A mãe concordou que existe um futuro melhor para seu menino na Itália. Ela ficou, em um ângulo esquecido do Mali.

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