Fora d’água

Fui buscar Helena na escola e no caminho a pé pra casa ela me conta, tentando emprestar alguma normalidade à sua fala, claramente, escondendo um incômodo:

“Sabia que hoje é a festinha da fulana? Todas as meninas foram. Veio uma van para levar todo mundo.”

“É? E você não foi convidada?”, respondo, trazendo clareza para a situação.

“Ela me disse que os convites acabaram.”

Chegamos na portaria do prédio, trocamos uma palavra com a porteira, emendamos com banho, dever e jantar. Na hora de dormir, ela toca de novo no assunto: “tudo bem, né, mãe, ninguém é obrigado a convidar todo mundo”, fala, tentando se convencer.

Sim, na teoria funciona assim. Dorme, passa.

Mas o incômodo da exclusão fica ali no seu colo. E você, mãe, tentando entender os motivos. Sua filha é tranquila, obediente, já lê e escreve, não dá trabalho na casa de ninguém. De fato, a menina aniversariante não é das mais próximas. Quando se encontraram no clube, Helena que não quis brincar com ela. Mas outras que também não são ligadas, estavam na tal da van, a caminho da celebração no bufê. Qual é a explicação?

Tempos líquidos, a tecnologia não deixa você desconectar da história: o Whatsapp apita e entram as fotos da criançada na festa. Você passa para o segundo estágio do desconforto. Começa a se culpar e, imediatamente, a se defender, já com um pouco de raiva: será que é porque não sou a mãe mega simpática na porta da escola? Não fico comentando com emoticons de palminhas os memes machistas no grupo de Whatsapp da turma? Ou por que na última festinha não fiquei na rodinha das mães falando mal da professora?

Seja lá qual foi o motivo, o fato é que ficamos, eu e Helena, ali, peixes fora d’água. E, veja só, na mesma situação em que vimos outras pessoas ficarem, em outros tempos, em outras tribos. E o que fizemos mesmo quando vimos os outros naquele desconforto? Ah, falamos que era um absurdo, comentamos aqui e ali. Mas de efetivo, de inclusivo, que mudasse o cenário e fizesse com que todos aprendessem a conviver com a diferença?

Não fizemos nada.

Não fizemos nada quando um amigo da turma do filho que gostava de bichinhos de pelúcia começou a ser discriminado e excluído dos grupos.

Não fizemos nada quando um outro era evitado nas tardes de futebol no clube porque estava acima do peso e “nem para ficar no gol servia”.

Não fizemos nada quando a menina que “tinha dificuldade de aprendizagem” era evitada nos trabalhos em grupo.

Não fizemos nada quando o filho do porteiro da escola não era convidado para as festas porque “não tinha como rachar a comida e bebida”.

Não fizemos nada quando o menino autista foi discriminado na brincadeira da festinha de aniversário porque “ele não sabe brincar”.

 

E agora sentimos, levemente, na nossa pele branca e privilegiada, um incômodo que pode nos fazer refletir e agir de verdade em relação às intolerâncias e exclusões mais que reais de todos os dias.

Como escreveu Fabiana Ribeiro no Para Todos, Nove não são dez.

E tomara que minha Helena, sentindo, possa aprender a fazer.

Comentários

  1. Ai, Raquel, que chato…
    Mas acho que as crianças superam melhor que a gente, não?
    Já aconteceu com meu filho há uns dois anos, vários amiguinhos saindo em fila com a mãe do aniversariante que os levava para uma festa-futebol. Pedrinho, então com 6 anos, ficou ali olhando a agitação na saída e me perguntou: eu vou, mamãe? Eu respondi que achava que a festa era só para os amigos com quem o menino mais brincava, não caberiam todos na casa etc e tal e acho que ele entendeu de alguma forma. E o motivo do “não-convite” deve ter sido esse mesmo – limitações de espaço, de grana…
    Eu faria diferente, não marcaria num dia de semana pós-aula, justamente para evitar situações como essa. E na comemoração deste ano do meu mais velho, optamos por chamar todos os meninos da classe porque entendemos que nessa fase, as crianças conversam e provavelmente a festa seria o assunto da semana e não queríamos deixar ninguém magoado…
    Agora isso se tratando de crianças “normais”. Imagino que é bem mais complicado quando envolve aquelas com alguma característica de destaque, que acabam rotuladas e postas na “geladeira”.
    No caso da sua Helena, realmente não consigo entender o contexto de uma festa em Buffet que não possa incluir a classe inteira. Na escola dos meus filhos, isso não é permitido; se uma van for levar crianças da escola para a festa, tem que convidar a turma inteira. Sinto muito por ela…

    • É Daniela, esse é o problema. Você leu um texto incrível e não retirou nada de aprendizagem dele. A Raquel viu na exclusão da Helena um fato para refletir as próprias atitudes. Você, como muitos de nós, encontrou meia dúzia de desculpas que esclarecessem os fatos e os tornassem mais confortáveis a nossa realidade.
      Quando você usa o termo crianças “Normais” e “aquelas” com alguma característica de destaque, você já se posicionou e deixou claro seu extinto exclusivo.
      Talvez nem tenha percebido, mas exclusão é assim mesmo, a gente faz sem perceber. Quem percebe é o excluído.
      Meu nome é Fernando, sou pai de um menino com Síndrome de Down que ainda não foi excluido, mas que certamente um dia será.

      • Fernando, acho que você me entendeu mal e foi rude desnecessariamente.
        Eu entendi exatamente o que a Raquel tentou passar no texto dela. Sei como ela se sentiu, porque já passei por essa experiência e por isso, já tive a oportunidade de refletir sobre este tema e continuo tomando todos os cuidados para não excluir ninguém nas comemorações de meus filhos, mesmo que isso represente um gasto a mais do que meu orçamento permitiria…
        Mas entendo que nem todos sejam assim, e não posso obrigar outros pais a convidar meus filhos, mesmo quando tudo levar a pensar que não há motivos para não fazê-lo. E existe, sim, a possiblidade de o “não-convite” não ser um ato de preconceito e simplesmente, uma vontade ou necessidade de fazer uma comemoração menor…
        Eu sempre tento entender o outro lado, em vez de julgar e condenar os pais nessas situações. Muitas vezes, essa questão da lista de convidados gera muita angústia para quem organiza o evento…
        E, se por acaso, eu concluir que realmente houve uma displicência desses pais, então talvez seja até melhor meus filhos não estreitarem amizade com essas crianças.
        Acho que é fácil entender que quando escrevi “normal” com aspas estava sendo irônica! Porque, de perto, ninguém é normal, né?
        E justamente me sensibilizei com a percepção de que viver a exclusão deve ser mais difícil ainda para aquelas crianças que são discriminadas por alguma característica específica, como ser gorda, de pais separados, autistas…
        Por coincidência, hoje descobri que meu filho é um “não-convidado”, junto com alguns outros, para a festa de um colega de classe. Já conversamos e ele está tranquilo. Claro que eu fico chateada, preferiria que ele não fosse excluído, mas vou fazer o quê? Me revoltar com essa mãe? Encaro como mais uma oportunidade de prepará-lo para o mundo. E se algum dia seu filho ou qualquer outro menino estudar na mesma sala de algum dos meus filhos, ele estará na listinha de convidados de nossas festas! Como sempre fazemos!

  2. Muito interessante, Raquel. E coincide com uma preocupação atual, pois tenho presenciado este tipo de comportamento em diferentes lugares que freqüento. Jovens recusados em grupos escolares são apenas alguns exemplos. O mundo é muito cruel e precisamos aprender mecanismos de defesa úteis a todos . Bjs

  3. Difícil de entender e superar,mas é a pura realidade que se vive hoje,exclusiva e velada ao mesmo tempo pela mesma sociedade atual.
    Não acho compreensivo pois criando filhos que excluem os amigos,só corroboram para este mundo podre que está aí!
    Sinto sua decepção, e que sirva para que a gente não compactue com esse desrespeito,e ensine nossa família a incluir e compreender que não somos iguais!
    Bjs

  4. Os psicólogos dizem que o melhor remédio é fortalecer o bulinado e eu concordo. Concordo também que os pais não podem obrigar seus filhos a fazerem tudo do jeito mais certo. Porém, não consigo entender como não é possível adultos explicarem aos filhos o que é minimamente aceitável e o que não é. E bulling eu, com toda clareza que possa escrever ou dizer, acho totalmente reprovável. Quase uma ação primitiva que envergonha qualquer senso de sociedade. É uma estrutura de relação corrompida que se baseia no extremo egocentrismo. Um mal bem atual. E a idade de 7, 8 anos aos 14/15, quando as autoafirmações são criadas, é quando mais aparece. No mais, conversas com ambos os lados sempre foram o remédio, Porém, a verdade é que normalmente as pessoas são refratárias a conversar sobre os seus limites – ainda que eles ultrapassem os limites alheios com extrema facilidade. Mil beijinhos para essa fofa e para você também e todo o meu carinho.

  5. Infelizmente , situações assim nos fazem mais fortes…mas dói. …vc chora pelo seu filho e pelas pessoas q ainda tem tanto preconceito.

  6. Acho que exclusão faz parte da vida de qualquer pessoa em qualquer tempo e quando em idade tenra servirá para fortalecer e enfrentar a vida. Estou falando do tipo de exclusão mencionado. Afinal, é bom aprender desde cedo que na vida, como no jogo, não se ganha todas.
    Mais praticidade e menos mi mi mi.

  7. Meu filho quando criança passou pela mesma coisa,uma mãe me deu recado,para eu ir pois a mãe da aniversariante,pediu para que ela fosse porta voz,eu indaguei,mas ela convidou meu filho???então ela disse ela pediu para avisar à todas as mães,então eu fui com meu filho,quando ele estava lá dentro,saiu e veio até mim e disse mãe quêm nos convidou???pois a fulana me disse o que eu estava fazendo aqui???nossa minha cara foi no chão ao ver o constrangimento do meu filho,isso gerou um conflito entre ambos por anos,e o pior que a porcaria da menina foi estudar na outra escola que ele estava,uma nariz em pé,uma vez então eles entraram em conflitos,ela arranhou meu filho no braço de ficar saíndo aguá,daí solicitei a presença da mãe dela na escola pois queria ver o que estava acontecendo dai ela fala para mim estou com um estoque aqui no chão,então eu respondi,fulana você conhece a mim e a minha familia,somos pessoas do bem,e você sabe muito bem que se você não têm tempo imagina eu!!!!então ou você aparece ou eu aciono o conselho tutelar,no instanteo pai da garota apareceu com a cara de sono do caramba,dai quando a menina veio,pasmem não tinha um arranhão,e a menina falou isso foi uma brincadeira não é nada de demais,então eu mostrei os braços do meu filho e disse isso é brincadeira???ai foi que a diretora se manifestou e disse por isso que vocês fazem merda,pois encaram tudo como brincadeira,e o pai calado tava calado ficou,achando que não era nada demais,claro a filha dele não tinha um arranhão daí eu mandei o verbo,olha aqui garota,meu filho tá na escola,eu estou lá fora mas estou de olho nele!!!Ok!!!!!nunca mais ela nem olhou para ele,depois eu soube que mãe falou que gerou piscológico,é mas deveria rolar para todos,pois a familia segundo eu soube depois eles vivem mudando de casa por incomodar vizinhos com gritos e porradas,este é o reflexo dos pais nos filhos e ai esses filhos loucos crescem viram pessoas doentes e vão para a sociedade assasinar,roubar e matar,eu até falei se fose escola pública diriam que era favelados,e e esta escola que entre aspa é uma escola particular de elite do bairro?????????

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