Filhos são uma função social ou é só amor?

Os filhos dos nobres sempre receberam atenção e estímulo para que fossem cultos e empreendedores. Depois foram os filhos dos burgueses. E agora é a classe média na tentativa de equilibrar trabalho e educação dos filhos. É comovente ver os pais que se sacrificam para pagar escola ou cursos de inglês. Mães que vão ao cinema amamentando. Mulheres dançando com seus filhos amarrados em slings nos seus corpos. Executivas que controlam pelo celular os movimentos do seu bebê na creche. As lojas de brinquedos lotadas de no fim de semana com mães gerentes de bancos gastando o salário nas últimas novidades da propaganda do Cartoon ou Discovery Kids.

No cotidiano um adulto precisa preparar a criança para enfrentar o seu dia. Deve levar e buscar na escola, limpar a casa, fazer comida, conversar, ajudar no dever de casa. Isso é criar um filho. Isso é investir na formação de um indivíduo que possa ser independente e consciente. É um trabalho invisível, mas não desnecessário. É um trabalho produtivo, mas não remunerado. É um trabalho social, mas não reconhecido. O cuidado de uma criança, se não é privatizado com babás ou creches, não é visto como uma função que possa ser avaliada e gratificada. Se tem afeto envolvido, não tem valor social. Se quem cuida é a mãe, a avó ou o pai, passa a ser uma obrigação afetiva, que não tem direitos reconhecidos.

Há 11 anos comecei a estudar com afinco tudo sobre gravidez, filhos, maternidade, amamentação. Assim como me preparei para o concorrido vestibular em jornalismo, para o doutorado em Teoria da informação, também estudei para ser mãe. A cada mamada, troca de fralda, ida ao parquinho, leitura de história, música cantada, fui me dando conta da importância da educação para a formação do indivíduo. Isso virou parte da minha tese de doutorado. E o motor da minha existência. Mas sempre senti que tinha algo faltando. E aos poucos fui me dando conta que esse vácuo é o reconhecimento da função social da maternidade (ou paternidade, se é o homem que assume as rédeas da educação direta das crianças, situação mais rara estatisticamente, mas que existe).

Historicamente o cuidado dos filhos é obrigação da mãe. A questão fisiológica da gravidez determinou também culturalmente o desenvolvimento desse papel. Mas nos últimos séculos estamos vivendo uma revolução lenta, mas inevitável. As mulheres querem escolher ter ou não filhos. Em muitos países elas já conseguiram esse direito, através de métodos anticoncepcionais ou aborto. As mulheres que escolheram ter filhos querem agora ter o direito de criar ou não esses novos sujeitos sociais que ainda precisam de suporte. Com a industrialização e a entrada da mulher no mercado de trabalho, a solução inicial foi fazer como os nobres e burgueses antes e pagar outros adultos para assumirem esse papel.

Alguns países nórdicos e a Alemanha estabeleceram regras e legislações de direitos trabalhistas que vão por esse caminho, de valorização dessa função, a educação de crianças no lar. Mas ainda existe a clara necessidade de impor a escola em países em desenvolvimento ou em situações de desigualdade social. Estudos nos Estados Unidos mostraram que as crianças de baixa renda que não frequentaram creches tinham o desenvolvimento intelectual e criativo atrasado em relação aos seus companheiros de classe média, tenham eles ido ou não para a escola. Professores brasileiros – que receberam jovens em escolas públicas bem conceituadas que ingressaram pelo sistema de cotas para negros – se deram conta rapidamente da diferença não somente de formação acadêmica, mas de condições de reflexão e elaboração do pensamento.

Uma mãe (ou um pai) não devem ser julgados pela forma que decidem criar seus filhos. Deveria ser um direito, sendo a criação de um indivíduo reconhecido como um bem público e social. O caminho inverso que as mulheres da atual geração está tentando, que é o de voltar a educar diretamente os próprios filhos, é um desafio tão árduo quanto foi o daquelas mulheres como a minha avó, que queria ter o direito a trabalhar fora de casa. E voltamos ao fato do reconhecimento do trabalho em casa como um trabalho socialmente valorizado e necessário. E ele pode até ser procrastinado quando estamos sós, mas não é possível quando existem crianças dependendo da organização familiar, da limpeza, da alimentação, do estímulo, do afeto no cotidiano. Esse é o que eu tenho defendido como o direito ao reconhecimento da função social da maternidade, como um vínculo de trabalho sólido e essencial para o desenvolvimento da sociedade.IMG_8619

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