Expectativas

Nestes dias de sol de primavera, quando o termômetro já passa dos 15º, não penso duas vezes: mando os meninos já de short e camiseta para a escola. Totalmente ao contrário das mães russas. Seus filhos ainda vão para o colégio com casaco pesado e gorro na cabeça. Isto sempre me chamou a atenção. Deveria ser ao revés, não? Quem está acostumado com o frio, deveria sentir calor rápido e quem não, deveria andar mais agasalhado por mais tempo. Aí percebi que, como tantas coisas na vida, a sensação térmica de cada um tem muito que ver com nossas expectativas: eles sempre esperam o pior, nós sempre esperamos o melhor. Elas esperam mais frio, eu espero mais calor. Não sei tem a ver com o clima ou com a cultura, mas seguramente tem a ver com nossas expectativas.

Expectativa é aquele sentimento traiçoeiro que pode nos impedir de viver o presente. O pensamento no futuro. No que virá. Ou melhor, no futuro como deveria ser. Sentimento que alimenta sonhos. Sonhos que podem se transformar em ilusões, que é como chamamos os sonhos não realizados. Mas também expectativa tem a ver com desejos, que nos ajudam a idealizar e construir nossas vidas. E provavelmente não existe nada que mais gere expectativas que criar filhos. Desde o momento da gravidez, vamos imaginamos como serão, como se comportarão, que vão fazer com suas vidas. Alimentamos nossas expectativas de como seremos como pais, como educaremos, como faremos as coisas distintas dos outros. Como no mundo ideal dos sonhos futuros, tudo é maravilhoso. Sempre esperamos o melhor, não é?

Aí vem a vida presente e nos dá uma banana. Não é que passe nada de ruim (toc, toc, toc), mas o cotidiano de pais não se parece muito com as expectativas sonhadas. Não somos tão sábios na hora de educar como pensávamos que seríamos, erramos e voltamos a errar muitas vezes. Por cansaço, por estresse, por falta de paciência, vamos ao mais fácil, ao mais rápido, às vezes ao mais eficiente. E nossos filhos são muito mais parecidos com todos os seus amigos do que poderíamos supor. Não são seres mágicos, especais e exclusivos. Não necessitam privilégios. Claro que são indivíduos, com sua personalidade (e quanta personalidade!), mas é importante ter a consciência de que são apenas crianças como todas as outras. Que bom!

Mas nossas expectativas vão se impondo. Ao passear com os meninos pelos campus da Universidade, falei: “um dia vocês vão estudar aqui.”E me arrependi em seguida. E se não quiserem? E se quiserem ser atletas, artistas de circo, dirigir um caminhão? Tantas coisas…Claro que cada um fará o que quiser com suas vidas, mas me vi colocando minhas já futuras aspirações em voz alta. Melhor não. Talvez esta seja uma das mais importantes coisas que aprendemos ao ser pais: não esperar. Aceitar nossos filhos exatamente como são. Tímidos e extrovertidos. Bangunceiros e tranquilos. Bonzinhos e brigões. Que comem muito e que não comem nada. Bons e maus alunos (afinal o que significa isto?). Aceitar. Acolher. Amar. Não esperar.

 

 

 

 

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