Sem filhos

Numa das melhores cenas da última temporada de House of Cards (cuidado, pequeno spoiler), uma jovem mulher de político ascendente pergunta a Claire, a super primeira-dama, se ela se arrependia que não ter tido filhos. Claire a olha com surpresa e desprezo e responde com a pergunta mais temida:

“- E voce? Se arrepende de ter tido?”

Dizem as estatísticas, que uma entre quatro mulheres espanholas nascidas em 1975 não terá filhos. Será a geração que menos se reproduzirá de toda a história deste país, que tem uma das menores taxas de natalidade do mundo: 1,3 filhos. Esta geração já tem até um nome: são os Dinks (double income, no kids. Quer dizer, dois salários, nenhuma criança). Mas não é somente aqui tem cada vez a mais mulheres que optam por não serem mães. Se olho à minha volta, tanto aqui na Europa, quanto no Brasil, tenho várias amigas e conhecidas que fizeram esta escolha e, assim como Claire, muitas vezes sem vêem obrigadas socialmente a justificá-la.

Na Espanha,  os motivos da não-maternidade são muitos: crise econômica, aumento do desemprego, a difícil conciliação entre o trabalho e a vida familiar são sempre as mais citadas. Boa parte das pessoas no Brasil pensa que é mais fácil ser mãe na Europa porque as crianças passam mais horas na escola e o equilíbrio com trabalho seria mais tranqüilo. Ledo engano. Sim é certo que temos horário integral (no nosso caso de 9h da manhã às 16h30), por outro lado as crianças têm muito mais férias. Por exemplo, acabamos de terminar as férias de Páscoa esta semana. Enquanto nós pais tínhamos apenas os quatro dias normais de feriado da Semana Santa, os meninos ficaram 15 dias em casa. Também temos outros 15 dias de férias entre o Natal e o Ano Novo e quase três meses no verão! Complicado em um país que babá sim tem, mas é artigo de luxo.

Se os motivos econômicos são sempre os mais citados, não podemos esquecer a própria cultura social atual, que atrasa cada vez mais a entrada do jovem na vida adulta. Assumir suas responsabilidades, ganhar seu próprio sustento se estão retrasando até perto dos 30 anos. Então, o tempo neste caso vai em contra a idade reprodutiva da mulher. Que primeiro, obviamente, buscará ter maior estabilidade financeira e emocional antes de se aventurar na maternidade. A conseqüência é que este é o país em que a mulheres têm o primeiro filho mais tarde: 30,5 anos de média e, por isto mesmo, dificilmente terão um segundo.

E claro também estão as mulheres que não serão mães porque não querem. O mito de que todas as mulheres têm instinto maternal é apenas isto mesmo: um mito. Há muitas pessoas que optam por colocar todo seu foco na vida do casal, ter a liberdade de tempo e espaço que muitas vezes são limitados pelos filhos. Ou que colocam toda a energia e tempo no trabalho. Ou que simplesmente não gostam de criança pequena. E me parece super injusto que estas mulheres (homens quase nunca) tenham que ficar justificando e explicando suas escolhas.

E respondendo a pergunta de Claire, que muito me fez pensar, se já me arrependi de ter filhos, a resposta é não. Filhos não são presente, como leio muitas vezes por aí. São fruto de uma escolha bem pensada e parte de uma construção em conjunto. Recebo muito mais dou. Nunca poderia dizer que me arrependo, porque não poderia imaginar minha vida sem eles. São parte de mim. Mas confesso que já olhei com inveja as amigas sem filhos, que viajam sem pensar muito, que saem sábado à noite sem maiores complicações e podem curtir a ressaca dormindo toda a manhã de domingo. A inveja é uma m… já sabemos, mas é impossível evitá-la. Bem, um dia os filhos crescem. Dizem…

 

 

 

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