Política para criança

No rádio do carro escutamos notícias do Brasil. Falam de um espetáculo circense protagonizado pelos deputados no Congresso Nacional. O tom é de chacota. De surpresa. De espanto. Falam da democracia em risco no gigante sul americano, como eles sempre se preferem ao nosso país. Hugo pergunta:

“- Mamá, que está acontecendo no Brasil?”

E agora? Como explicar?

Foi mais fácil no começo do ano, logo depois que voltamos das férias de Natal, quando um amigo do Hugo veio me fazer um pedido na porta da escola.

“- Por favor, não leve mais o Hugo para o Brasil. Não quero que ele fique doente.”

Era a época em que o vírus Zika estava em todos os telejornais espanhóis. E o amigo bem intencionado estava preocupado. Mas foi mais fácil explicar: que sim, o vírus era um problema, que nós tínhamos que lutar contra um mosquito, usar repelente, se proteger, mas que ele não se preocupasse, pois Hugo não ficaria doente.

Falar de política para meninos de cinco anos é mais complicado. Mas também creio que é importante. Pouco a pouco aprenderão que existe uma realidade fora da nossa família, da escola, dos amigos. Existem conceitos como nação, democracia, país. Eles não podem ser tratados como se não fizessem parte desta realidade, porque sim, fazem. Porque, como já disse o Frei Beto, quem não gosta de política, termina sendo governado por quem gosta. Então penso que se perguntam, é bom responder.

“- O Brasil tem uma presidente igual que na Espanha. Para ser presidente, precisa ganhar as eleições. Algumas pessoas querem mudar a presidente do Brasil sem ter eleições.”

“- Ah…. e vão conseguir?”

“- Talvez…mas não se preocupa, porque você sabe que no final o mau sempre perde, não é mesmo?”

Sim, ainda me custa desiludir o menino. Ele ainda vai aprender que isto nem sempre é verdade. Ou não. Talvez sua geração venha melhor preparada para evitar momentos como este. Vamos contar para eles como era o Brasil antes. Vamos falar da época que nem eleição tinha. Que teve muita gente boa que desapareceu porque queria um Brasil melhor. Aliás, aqui na Espanha teve muita gente que desapareceu também. Que todo dia  tem gente buscando seus familiares em tumbas sem nome. Que a democracia custa caro e que não vão nos deixar sem ela outra vez. Ah, não vão mesmo.

Mas é sempre uma sensação de exílio quando passa algo no Brasil e não estamos por perto. Falta gente com quem compartilhar o momento. Falta a mesa do bar para debater. Ficamos ligados na internet buscando notícias. Fico me segurando para não entrar em polêmica por rede social, porque sei que isto não leva a lugar algum. E acabo deixando de “seguir” a várias pessoas para evitar a tentação. Ficamos com a vida partida  uma vez mais. Meio lá, meio cá. E com a angustia de que estou ficando sem país para voltar.

Voltamos para o carro e para o debate no rádio. Atender a curiosidade dos menios. Talvez seja esta a minha esperança nesta semana de tanta tristeza. Uma geração mais consciente. E vocês sabem que esperança é aquele bichinho que mora dentro da gente, que sempre nos faz acreditar num Brasil melhor.

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