O dia em que assistimos Frozen

Meus filhos vivem em um estado constante de atraso tecnológico. Enquanto a maior parte das crianças ocidentais são antenadas com os últimos lançamentos de videogames, Nintendo, Wii, iPad ou já viram os filmes e conhecem todos os desenhos animados do Cartoon ou Discovery Kids, aqui em casa a mais velha lê “Pequenas mulheres”, o do meio quer reciclar todo o lixo produzido na casa e a mais nova…bem a mais nova não se conformava em não saber cantar a música do filme Frozen, que a sua melhor amiga de 4 anos já sabe de cor. Sábado cinza, nuvens por todo o céu, a mãe desanimada, encaramos o DVD do Frozen com mais de um ano de atraso.

Devia ter visto esse filme antes. A Disney pode surpreender. Talvez seja hora de sepultar esse preconceito contra o cinema americano de uma vez. Até porque cada vez fica mais claro que ideologias extremas não trazem bons frutos. E depois o comunismo, esquerdismo, que tanto me fascinou na primeira e segunda adolescência, rendendo parcos frutos na vida adulta, a cada novo desafio me decepciona. Esse ano, por exemplo, diante de uma crise pessoal e profissional sem precedentes, fui pedir apoio a meus dois amigos comunistas históricos italianos. Eles sugeriram eu pegar o primeiro avião de volta ao Brasil e tentar resolver meus problemas na minha terra. Ok. Gostei do Frozen.

É a história de duas irmãs muito amigas quando pequenas com pais muito atenciosos e presentes. Uma família maravilhosa. Mas a filha mais velha nasceu com um poder especial. As suas mãos produzem gelo. Ter um talento, um poder, a princípio é algo positivo. Mas se quem o possui não tem controle e, diante de situações de tensão e desafio, pode fazer mal a quem mais ama…aí esse poder pode ser muito negativo. Elsa descobre isso e sofre, se sente em culpa, decide se isolar, esconder o seu talento. Até o dia que resolve gritar basta!, no dia da sua coroação como rainha, ela deixa de ser a menininha assustada e medrosa e assume a sua identidade de mulher poderosa e capaz de deixar para trás todas as convenções sociais. “Às vezes faz bem escapar um pouco”, canta Elsa na sua explosão. “Agora o destino me pertence”.

Só que a liberdade e o isolamento de Elsa provoca danos a todos, aos seus súditos, condenados a um inverno perene, e principalmente à sua irmã, Ana, ingênua, emotiva, intensa, que a ama profundamente e não aceita de nenhum modo abandonar Elsa ao seu destino individualista e egoísta. Elsa não sabe como se comportar, não sabe como controlar a emoção, a raiva, o medo. Elsa é fruto do nosso tempo, que destrói pouco a pouco os espaços para a reflexão e faz com que a comunicação emotiva entre os indivíduos se torne insignificante, indesejável. Os corações se enrijeceram, diria o filósofo italiano Umberto Galimberti, criando um deserto emocional muito semelhante ao castelo de Elsa na montanha do Norte, em meio à neve e em solidão absoluta. E Elsa cai na armadilha da felicidade que a aparente liberdade lhe oferece.

O deserto emocional nas famílias onde faltou o riso ou o choro, como no caso de Elsa e Ana, afastadas cada uma no seu mundo como proteção para que uma não fizesse mal e a outra não sofresse, gera falta de crescimento emocional. Os fatos da vida passam sem levar em consideração os sentimentos. “Brincadeira, choradeira, pra quem vive uma vida inteira…”, canta o Palavra Cantada. Meus filhos se identificaram com os personagens. A pequena, doida para se libertar do seu status de caçula, quer ser a Elsa. O menino ficou magoado com a traição do príncipe. Pois é, o príncipe era um trapaceiro… A filha mais velha, bem, a mais velha adorou a Ana e viu na Elsa pessoas a quem ela ama e que resolveram se afastar…

A Disney colocou a Elsa no alto da montanha sim, porque a vida é como escalar uma montanha, como demonstra Russ Harris na Acceptance and Commitment Therapy, com trechos mais fáceis e outros mais difíceis. Faz parte experimentar a dor, que é uma possibilidade de crescimento. Quanto mais tentamos escapar das dificuldades e dos medos, mais provocamos sofrimento. Elsa sofre porque quer controlar suas emoções e só diante do “amor verdadeiro” o seu coração se aquece e ele aprende a ver o lado positivo do seu poder. Ela aprende não a controlar, mas a conviver com o seu lado “negativo”, não o nega, nem rejeita esse demônio, essa magia, que está dentro dela mesma. Tem em mãos a espada para subjugar o inimigo. Aprende que não deve ter medo das suas emoções. O sucesso de Frozen se explicou para mim naquela tarde de sábado. Aqueceu meu coração nesse frio início de primavera por aqui. E o domingo amanheceu ensolarado.

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