A estrada

A casa aberta, a sala quase vazia, o quarto desfeito, o desabrigo, o vazio, o cru, o selvagem, o potencial. O começar de novo. O espaço que convida ao silêncio, à reflexão, à gratidão, à admiração, ao respeito, à reverência. A escuridão que se solidariza aos fantasmas de toda uma existência, que aceita e afasta a ilusão de que estaremos mais seguros se habitarmos apenas o ambiente do que julgamos ser conhecido ou pretensamente sabido.

O vento que uma hora ou outra, ou ainda de uma hora para outra, começa a levar a vida para uma nova direção. A cobra que invade o seu mato e, confortável, decide que ali pode trocar de pele e sair explorando novos quintais. O conselho do amigo que ensina a pedir licença aos deuses para que se possa atravessar a ponte, orbitar um novo espaço, seguir o caminho, enfeitar novos templos.

A nova igreja, o pagode japonês, a mesquita, a sinagoga, o templo taoísta e o outro Hindu. A nova mistura, a confusão ordenada. O tempo de parar para tomar um drink, observar novas caras, a rua agitada, a mistura dos mantras, das pick ups com música eletrônica, o chinês de voz rouca e sensual
cantando clássicos do soul e do rock’n roll. As chinesas de tiara da Minnie, laçarotes e meia ¾. A francesa de coques, salto alto e um vestido esvoaçante de seda. A nova fusão. A confusão ordenada. O estranhamento.

Na mesa ao lado, me misturo ao contexto daquela garota. Ela de ossos largos, pele morena e dentes brilhantes, me é um tanto mais familiar, talvez Malásia, talvez Indonésia, à espera do rapaz que nunca viu. Um encontro às escuras. Ele chegou atrasado, de origem indiana, alto, volumoso, sorridente, bem arrumado, se aproxima determinado, mas com um olhar doce e gentil. Os dois com um sorriso tímido, sincero, respeitoso, curioso e a evidente vontade de se reconhecer um pouco no outro, mesmo que o outro venha de uma história tão diferente.

A primeira impressão. Aquilo que sabemos que não ficará impresso daquele jeito. O espaço ganhando novas formas, descobrindo sombra, beleza, imperfeição, concretude. A vontade de gostar, a necessidade de experimentar, de se manifestar, de silenciar acompanhado, de fazer barulho e ter alguém ao lado, a humildade, a delicadeza, a reverência e o cuidado que pede toda vida nova. A força da memória, a história que ecoa em nossos poros, a certeza de que somos resultado de uma cadeia infinita de acontecimentos que nos trouxeram até aqui.

A despedida da amiga que no abraço do adeus me lembrou: “somos como aquele cajueiro lá do norte do nosso Brasil. Ao tocar o solo nossos galhos começam a criar raízes e voltam a crescer novamente, como se fossem troncos de uma árvore nova.” E se somos árvore, se encontramos força para crescer de novo é porque naquele terreno achamos nutrição e espaço para que a nossa natureza se multiplique. Vamos sem pressa, com respeito, curiosidade, delicadeza e confiança nas possibilidades do ecossistema singapuriano. Pedimos licença aos deuses locais, aos guetos, ao verde que conseguimos encontrar para nos cercar e proteger a nossa casa, à estrada que se abre. É tempo de sentir o terreno e viver os receios e a potência de ter a página em branco.

Comentários

  1. Grande Bia! Mudar, transforma, recriar. Nisto tudo a certeza do seu olhar atento e dos ventos macios, que desalinham os cabelos a procura de pensamentos maiores , sentimentos mais profundos e carinhos do tempo. Bjs Querida!

  2. A eterna mudança da vida.
    Mudança que permite o aprendizado e traz a evolução.

    Bia de passos lentos, olhar atento e pensamento rápido !

    Te admiro muito minha linda !!! Lov U

  3. Querida Bia.
    Só hoje Dilzinha me passou dois de seus textos e eu me voltei ao passado a já te via diferente do bando, daqueles que viver é fazer de conta…só desse seu jeito, que se é possivel fazer história, preenchendo, os nossos, os seus vazios, tornando-os próprios, concretos, personalizados.
    Depois de passamos 30 dias na China, 10 entre Hong Kong e Macau, descansamos em Paris, antes de voltar.

    Parabéns guerreira, escritora da vida…Beijo da tia Dilza

Comentar