Ternura

Fiz um novo amigo dia desses de março. D., 22 anos, com deficiência intelectual, morador de uma comunidade na Zona Sul do Rio. Vive sozinho com o irmão de 23 anos, também deficiente intelectual. Foram abandonados pela mãe, doente mental. Ele me contou que todos os dias apanha de alguém de morro. Já tomou uma surra tão feia que perdeu um dos dentes inferiores da frente: “Queria muito ‘plantar’ este dente de novo. Se eu descobrir como, vou ‘plantar’!”. Ficou dois dias desacordado.
Diz que alguns meninos gostam de provocá-lo. Xingam, batem pelas costas. Machucam de verdade. Ele pega um cabo de vassoura e sai correndo atrás deles. Todos riem. D., não.

O barraco onde moram lá no alto do morro, ele e o irmão, que está obeso e cheio de cáries, é um pequeníssimo cômodo, sem janela e sem chuveiro, onde ficam banheiro, cozinha e cama. Imundo.
“Todo dia aparecem uns ratos enormes na nossa casa. Eu falo pro meu irmão, mas ele não liga. Aí eu fecho o buraco por onde um aparece e o ratão vai lá e faz outro buraco em outro canto”.
Meu novo amigo precisa de ajuda: não é de comida, nem de saúde (é forte, lindo e só o que lhe falta mesmo é aquele dente). Precisa ser cuidado.
Sua professora, salve ela!, o ensinou a ler e a escrever. Ele frequenta a sala de recursos e no contraturno aprende o que não foi possível acompanhar no turno regular. No quadro-negro da sala de recursos da sua escola pública está escrita uma lista de supermercado: macarrão: tantos reais; arroz: outros tantos. A professora ensina matemática e ensina a ir ao mercado. A professora também foi com ele tirar seu documento de identificação e conseguir o Passe Livre.
D. tem alguns amigos na escola, meninos e meninas que também frequentam a sala de recursos. D. é curioso. D. é um artista. Desenha tão bem que poderia ganhar dinheiro com isso. Mas D., mais do que de dinheiro, precisa de alguém.
“Tia Simone, você pode virar minha mãe? Tia Simone, acho que se você virar a minha mãe vão parar de me bater no morro”.

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