Escolhas

Atualmente faz sucesso na tv espanhola uma série dinamarquesa chamada Borgen. É uma espécie de House of Cards à européia, que conta a ascensão ao poder, como primeira -ministra de Dinamarca, de Birgitte Nyborg (vivida pela atriz Sidse Babett Knudsen ). Birgitte é uma mulher de classe média, casada e mãe de dois filhos. Para poder lutar por sua carreira política, ela fez um  acordo com o marido. Por dois anos, Birgitte colocaria todo seu foco no trabalho e ele seguraria as pontas com a casa e os filhos, deixando um pouco de lado sua vida profissional. Uma visão bem moderna da vida de casal, em que não importa quem ascende profissionalmente (se o homem ou a mulher). O  que vale é a família e que o cuidado dos filhos sempre seria do pai ou da mãe. E também fala de outra coisa que às vezes não pensamos antes de ter filhos: estes pequenos dão muito trabalho e a vida, seja ela pessoal ou profissional, nunca mais poderá ser a mesma. De alguma (ou muitas) coisa(s) teremos que abdicar. Mas será que estamos dispostos?

Cada dia é uma luta para tentar manter o equilíbrio entre o trabalho e o cuidado com a casa e os meninos. Equilibrio que não faço sozinha. Nacho se mantem na corda bamba tanto quanto eu. Para buscar as crianças na escola às 16h30, já pedimos mudança nos horários de trabalho, atrasamos reuniões, já dissemos simplesmente que não a determinados compromissos. Isto que contamos com a imensa ajuda de uns avós super presentes e dispostos. E se é  complicado quando tudo vai bem, quando alguém fica doente, já nem te conto. Mesmo gostando do que fazemos profissionalmente, temos um compromisso maior com as crianças. E ser pais nestas circunstâncias significa que às vezes um dos dois vai recusar algum trabalho (e dinheiro). Não queremos ser pais de fim de semana, mesmo que isto signifique viver de forma mais austera, para não dizer outra coisa. Mas claro, também não queremos – nem podemos – deixar de trabalhar. Então a luta para conciliar casa e família é diária e cansativa.

Conto tudo isto porque leio pelas redes sociais que, uma vez mais, estamos no Brasil discutindo sobre o trabalho de uma empregada doméstica. Um trabalho digno como qualquer outro e que deveria ser remunerado de acordo com sua importância. O que me faz pensar não é sobre se é legítimo contar com ajuda ou não. Cada um sabe da sua vida. Mas sobre as escolhas que a sociedade em que estamos imersos nos impõe e sobre como aceitamos ou não viver sobre determinados padrões. Serviço doméstico também existe na Espanha. Não é barato, mas um casal com os dois pais trabalhando, pode ser permitir contar com ajuda com os filhos. Mas ajuda aqui significa isto mesmo: ajuda. Uma pessoa para buscar, ou levar, os filhos na escola, enquanto os pais não chegam do trabalho. Não uma pessoa que vai se ocupar da criança com os pais presentes. Esta terceirização dos filhos que existe no Brasil é impensável aqui. Babás que levam o filho do patrão no médico, na festa de aniversário, que chegam ao cúmulo de levá-los à suas casas na periferia para que os pais possam descansar. Babás que acompanham os patrões nas férias. Babás até por triplicado, cada irmão com uma (sim, conheço uma família com três filhos e três babás). Verdadeira multidão dentro casa. Não, isto não existe por aqui. Não é nossa realidade. Não é nem mesmo a realidade da pessoa que pretende ser a primeira-ministra da Dinamarca.

Ser pais significa fazer muitas escolhas diariamente. Erramos muito. Querendo acertar, nem sempre fazemos o melhor. É o normal. O que me preocupa é, entre tantas opções que temos na hora de educar, alguém decida entregar a outro, fora da família, esta tarefa. Quando se pretende que, mesmo sendo pais, que a vida não mude. Que profissionalmente queiramos seguir e seguir, sempre mais e mais, como se os filhos não tivessem nada a ver com isto. Até o dia em que, ao encontrar um adolescente dentro de casa, se descubra que o tempo passou.

Deixo este texto por aqui. Vou correndo buscar os meninos na escola. Fico com eles em casa até o pai chegar. Quando Nacho chegue, darei minha última aula do dia. Ao voltar, encontrarei os dois já banhados e jantados, esperando-me para que lhes leia uma história antes de dormir. E assim terminamos nosso dia. Foi o que escolhemos. Amanhã mais.

 

Comentar