A Europa do medo e o Brasil que assusta

Pelo que leio na imprensa brasileira e pelo que acompanho nas redes sociais, parece que os últimos atentados em Bruxelas não tiveram a mesma repercussão no Brasil que os anteriores em Paris. Mas vivendo na Espanha, um país que já sofreu tanto com o terror, vamos acompanhando quase minuto a minuto todas as notícias. E para mim ainda é mais preocupante, pois tenho família e amigos muito queridos vivendo nesta cidade. Passamos alguns momentos de angustia até saber que todos estavam bem. Em particular, nos preocupávamos com uma amiga que trabalha bem perto da estação de metro onde explodiu uma das bombas, que uma gripe  salvou de estar em um dos vagões na hora da explosão. Mas parece que o Brasil está tão imerso em seus problemas internos que não teve espaço para outros problemas mais. E para nós, na distância, vamos vivendo de assombro em assombro cada notícia que vem do país. Nos dando a sensação que não há mais para onde ir: o medo do terrorismo de um lado, medo do retrocesso do outro.

A Europa, neste momento, não é mais um lugar democrático, com fronteiras abertas, estado de bem estar garantido para seus cidadãos. Vamos vendo como, pouco a pouco, muitos países foram fechando suas fronteiras para impedir o passo da enorme massa de refugiados sírios. Milhares de pessoas presas em campos gregos. Outros tantos milhares perdidos em terra de ninguém entre Macedônia, Ucrânia, Hungria, tentando chegar ao lado mais rico da União Européia. Que não teve nenhum pudor em fechar-lhes a porta na cara, fazer um acordo com a Turquia e de mandar todo mundo de volta, em troca de alguns milhões para o governo do presidente turco Endorgan. Vergonha, crime. Tudo junto ao mesmo tempo.

Junte a isto o medo ao terrorismo, que pode passar em qualquer lugar, a qualquer hora. Ficamos recebendo alertas: evitar os trens, evitar o metro, evitar ir a shows… e o medo vai gerando desconfiança e preconceito. E nenhuma esperança que a coisa melhore a curto e a médio prazo. Só nos resta contar com a sorte, lutar para que o preconceito não afete a convivência na escola e na cidade, ir suportando cada vez mais a vigilância onipresente e fingir que isto não nos afeta.

Aí penso na sorte de que o Brasil ainda está longe disto. Mas o Brasil também assusta. Medo das agressões sem sentido, que estão deixando o terreno verbal virtual, para o dia a dia. Medo de perder as garantias democráticas que tanto nos custou conseguir. Medo de ver tão claramente estampados alguns preconceitos que já pensava que estavam superados. E o medo maior: de um país divido, incapaz de dialogar, incapaz de ver o outro.

E no meio de tanto pessimismo, vamos buscando a esperança onde ela deve estar: nos filhos que criamos e que herdarão este mundo louco. Em Hugo que já lê suas primeiras palavras, em Carol que tirou as rodinhas da bicicleta. Não sei se é pouco. Deve ser. Mas nos voltamos cada vez mais para dentro, protegendo nosso pequeno universo. Tentando construir um mundo com melhores valores, melhores exemplos. Acreditamos nisto e, talvez por isto mesmo, vamos levando. Levemente e felizmente, levando.

 

 

 

 

Comentar