Palavras

Minha querida amiga Jacqueline Muniz, grande antropóloga, passou anos me repetindo as palavras de Lévi-Strauss:

“O pensamento se pensa.”

Mas só ao mudar de país é que compreendi realmente o que esta frase quer dizer. Pensamos com palavras. É nossa língua que vai construir a nossa maneira de pensar e, por conseguinte, a nossa forma de ver o mundo e de agir. Ao viver e vivenciar outra língua tao profundamente, a gente se dá conta de como ela é importante e como vai marcar nossas relações. E como gosto muito das palavras e dos seus significados, faço aqui minha pequena lista de algumas destas palavras e expressões que separam e unem o português do espanhol.

  1. Brincar

Brincar é meu verbo preferido em português. Ele nao existe em espanhol. Aqui los niños juegan (as crianças jogam) e Messi juega (Messi joga). Quer dizer, nao existe diferença entre o jogo lúdico do jogo competitivo. Competição e brincadeira vão juntos. Mas para nós nao é assim. Nós sabemos separar a diversão da competição. A seriedade do prazer. Cada coisa em seu momento. A competição nunca será brincadeira, mesmo quando praticada por crianças. E a brincadeira nunca será uma competição.

  1. Bom senso

Esta expressao também nao existe em espanhol. Aqui tem o “sentido comum” (que muita gente diz que é o menos comum dos sentidos, mas isto é outra história), que nós também temos em português. Nós diferenciamos o “sentido comum” do “bom senso”, que poderiam até ser sinônimos, mas nem sempre é assim. Nem sempre o que é comum a todos é o melhor. Aliás, em dias tao complicados politicamente, vejo muitas vezes o bom senso desaparecer do sentido comum. E nao ter o bom senso na língua, te deixa a mercê única e exclusivamente do sentido comum. Que perigo!

 

  1. Touros e futebol

Nós usamos tantas expressoes futebolísticas que nem nos damos conta: “bola pra frente”, “pendurar a chuteira”, “jogar para escanteio”, “jogar nas onze” , “estar no zero a zero”, só para citar algumas. Na Espanha, apesar do futebol ser tao amado, a língua está marcada pelas expressões que vem da tradição taurina e nenhuma do futebol. Algumas adoro como “toreando”. Quando minha filha Carolina está fazendo manha, Nacho sempre me diz:

“- No ves que te está toreando”. (Nao vê que ela te está toreando)

Fico imaginando eu como um touro, tentado alcançar a uma pequena toureira, que me engana com a capa, que me leva de um lado a outro até eu cair rendida. Vida dura a de ser touro.

Outra expressão que se usa muito é “echar un capote”. Em uma tourada, quando o toureiro está em apuros, seus ajudantes entram na arena para distrair o touro com sua capa (capote). Echar un capote é ajudar alguém. Quando precisar, peça a um amigo que te “eche un capote”. Amigos estão para isto, para nos salvar a vida.

  1. Cagar

Apesar de ser um verbo tao diariamente presente nas nossas vidas, em português temos um certo pudor em dizê-lo, mesmo quando estamos “cagando e andando” para algo. Aqui nao. Perdi a conta das vezes em que se usa. O espanhol se caga em tudo:

“me cago en la mar” (me cago no mar), “me cago en diez” (expressão mais “educada” para nao dizer em Deus), “me cago en la puta”, “me cago en la leche” (me cago no leite).

Aprendi estas e muitas mais quando, na minha primeira semana aqui, fui ao banco e o caixa eletrônico estava quebrado. Cada pessoa que entrava e via que nao poderia fazer o que pretendia, soltava uma das expressões acima. Fiquei uns 20 minutos no banco só para ouvir todas. Sao todas escatologicamente engraçadas e resolvem todos teus problemas de uma raiva momentânea. Acho que em português nao temos nada parecido. O nosso “que merda” bem dito é  o mais se aproxima. Mas não se compara em imaginação nojenta. Em liberação. Nao, nada é tao libertador.

 

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