Crescer

Esta semana ouvi de um rapaz de 23 anos, que ele não se considerava um adulto. Ainda se veia como adolescente. Sua maior diversão são os videos games, vive com os pais e não trabalha. E, principalmente, não considerava que isto fosse algo estranho.  Por um lado, admirei sua lucidez. Já é um grande passo nos reconhecer tal como somos (ou estamos). Depois me lembrei que minha irmã mais velha, médica, me contou que a OMS estuda subir até os 24 anos o período da chamada adolescência. O que daria toda a razão para o rapaz. Ele ainda teria um ano a mais nesta etapa da vida. E se a OMS recebe este tipo de propostas dos países desenvolvidos é porque de fato esta fase intermediária entre a infância e a vida adulta se está prolongando até o nunca imaginado. Jovens que se resistem cada vez mais a dar o salto à vida adulta. E eu, que crio dois filhos ainda pequenos, me pergunto: o que significa ser adulto? Como fazer para que os meus (nossos) filhos não temam crescer?

Neste ótimo artigo, Eliane Brum fala da geração mais preparada tecnologicamente, a que melhor sabe usar todas as ferramentas digitais, a que fala como mínimo duas línguas estrangeiras, mas que não aprendeu a sentir frustrações, porque sempre soube que a felicidade era um direito adquirido ao nascer. Não algo que deveria ser trabalhado. Uma geração que adora o talento, mas menospreza o esforço. E ser adulto significa muito esforço. Temos que lidar com muitas frustrações ao longo do dia, seja em casa ou no trabalho. Abdicamos de muitas coisas que adoraríamos fazer porque temos cumprir com nossas responsabilidades, com as contas que pagar, com a criação dos filhos. Se passa a idéia que ser adulto é uma chatice sem fim. Acabou o prazer. Só resta o trabalho. Não me estranha que os que tem uma vida privilegiada queiram atrasar ao máximo esta função.

O único que vemos nas tvs, na publicidade é o enaltecimento da juventude. O jovem é bonito, livre, feliz. Os 40 são os novos 30, dizem como consolação. Viva o novo! Então, há cada vez mais gente de 30, 40 anos que se veste como os de 20. E por isto algumas marcas de roupa fazem tamanhos cada vez menores, não apenas por gordofobia (!!!!), mas para impedir que as mães das adolescentes vistam as mesmas roupas que suas filhas. E vamos a algum encontro com outros adultos e as pessoas estão discutindo seriamente sobre super-heróis. Sem figuras de linguagem, estão verdadeiramente discutindo sobre Homem Aranha e qual Batman é o melhor. E aí lemos cada vez mais depoimentos de mães reclamando da maternidade, porque deixaram de desfrutar do seu tempo. Não como todas nós mães pensamos: podia estar vendo um filme, mas tô aqui vendo Peppa Pig. E sim realmente frustradas com esta situação, em vez de aproveitar e viver o tempo com o filho. Assim, começo a pensar que é tudo parte da mesma coisa: é difícil ser adulto, não queremos ser adultos.

Aqui na Espanha é comum que os filhos fiquem com os pais até o casamento. Mais ainda em uma crise financeira como a que vivemos, com o  desemprego passando de 20% da população economicamente ativa. Mas mesmo jovens adultos com trabalho preferem a mordomia da casa dos pais. Para que lavar e cozinhar? Minha mãe faz. E muitos pais estão felizes com esta situação, ao manter toda a família debaixo do mesmo teto.

Provavelmente uma das minhas funções de mãe (e Nacho de pai) seja incentivar desde sempre a independência dos nossos filhos. Mostrar que ser adulto é bom: temos poder sobre nossas vidas.Que podemos gostar de outras coisas. Nossas decisões, nossos acertos e nossos erros são nossos. Que bom! Ensinar que é impossível viver sem algum tipo de sofrimento. Viver requere esforço. Mas nós dá nossa maior liberdade: ser donos de nós mesmos. Claro que tem que pagar conta, mas nada é melhor que ser dono do próprio nariz.

 

 

Comentários

  1. Amei tudo que voce postou!Quero tr dar parabens pela tua alegria de viver junto de tus linda familia!!!Amamos voce!!! Bjo.grande da tia Dora e tio Mario Julio

  2. Querida Rosane: A sua análise está perfeita, tenho muito pouco a acrescentar. A realidade que você descreve é muito semelhante àquela existente entre jovens de classe média no Brasil. Eu e Marisa tentamos transmitir aos nossos filhos o valor intrínseco do trabalho: se este exige esforço, nos propicia também recompensas, que não são apenas materiais. Tentamos também vincular os nossos padrões de consumo aos nossos rendimentos como assalariados, evitando alimentar o consumismo. Parabéns pelo texto.

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