Alice, a maternidade não é o país das maravilhas

O saldo de hoje é uma mordida no meu pulso e um curativo. E depois um abraço e um pedido de desculpas. Do meu filho de 7 anos que levei para tomar a vacina contra a meningite. Na Toscana temos uma epidemia esse ano. Simplesmente tinha que obrigar o menino a tomar a vacina. Foi no consultório do pediatra dele, um italiano forte de 1,85 m, com ajuda de uma enfermeira. Lutamos os três para imobilizar e “fare la puntura”. Foi uma surpresa quando ele cravou os dentes no meu braço. Quando soltamos ele, ainda tomado pela crise de raiva, rasgou o lençol da maca e tentou derrubar o que via pela frente.

Essa semana uma mãe desabafou nas redes socais sobre o quanto estava sendo difícil assumir o papel de mãe. E foi muito criticada. E uma companheira de blog relatou a rica experiência de ensinar fotografia para um rapaz com síndrome de down. Tenho refletido, ser mãe. Ser mãe de um filho especial.

No domingo passado levei as crianças para visitar o Aquário de Livorno. Lá dentro, uma menina de cerca de 2 anos, Alice, entrou em crise porque não conseguia ver o peixe-palhaço, aquele do Nemo. O pai se afastou. E a mãe tentava de todos os jeitos tirar a menina do chão e acalmar os seus gritos. Mas não conseguia. Já durava mais de 15 minutos. Na Europa ninguém se intromete nos problemas dos outros. Na França te ignoram, na Itália, te olham. Como na saída do consultório do pediatra, em que todos os olhares me buscavam para confirmar que tinha sobrevivido bem aos gritos lá dentro.

Enfim, Alice. Passei por ela em outra sala do aquário e o surto continuava. O pai já tinha desaparecido. A mãe estava desnorteada e me procurou com o olhar. Ela me chamou. Por isso me aproximei. “Posso ajudar?”, perguntei. Ela balançou a cabeça, suplicante. Alice estava de bruços no chão se debatendo e gritando. Peguei ela por trás e a abracei bem forte, com as mãos no seu peito, na altura do coração, e fiquei repetindo: “Tua mamma è qui, calmati, eccola la tua mamma”. Sei lá de onde veio a minha iniciativa. Veio. Os movimentos de Alice foram diminuindo de intensidade, até se abandonar. Entreguei a menina para a mãe, com olhos marejados e gratos. Meu filho de 7 anos tentava ignorar a cena, como sempre, as outras duas filhas observavam, curiosas.

Lá fora, meia hora depois, nos encontramos novamente no calçadão da praia de Livorno cheio de gente que ia e vinha. Eu brincava de pique com meus filhos, Alice corria de mãos dadas com os pais. Não falamos nada. Só troquei um sorriso e um olhar com eles. Alice nem poderia me reconhecer, eu a segurei só pelas costas. Mas nunca irei esquecer a energia daquele momento. A cada crise do meu filho, tão especial, fica mais evidente pra mim o quanto é difícil sim ser mãe, não é um país das maravilhas. Mas também é cada vez mais claro o quanto pode ser uma experiência rica e transformadora.

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