A caixa das mães de minissaia

Para quem está longe de casa receber uma caixa é tão emocionante quanto um banho de cachoeira. O frio na barriga. O que será que vou sentir quando aquela água gelada atingir meu corpo? Na caixa que vem do outro lado do oceano Atlântico certamente virão sentimentos e recordações. Que podem ser um prazer – ou podem doer. Assim foi. Abrimos a caixa, eu e meus três filhos, e nos deparamos com desenhos, um lenço, chocolate, biscoitos caseiros, um livro, uma plaquinha de welcome, um diário, um vestido, um arco de princesa, cartas, tantas cartas, escritas por mães distantes com mãos apressadas de quem precisa preparar um banho, a janta ou ajudar no dever de casa. Era uma caixa da minha rede de mães curitibana. As “Mães de Minissaia”.

Nossos filhos frequentaram a mesma escola maternal. E tudo começou com uma conversa distraída na porta daquela casinha que abrigava o Cordão Dourado, uma escola waldorf, onde o que mais se procurava era se conectar com o que realmente importa na vida: afeto. Era uma época em que eu, e quase todas elas, estávamos nos descobrindo mães um tanto sozinhas. Algumas com maridos, mas todas muito solitárias. Estabelecemos vínculos que se transformaram em cafés, bolos, costuras, leituras. E foram se desenvolvendo até virar piqueniques no parque, empréstimo de carro, lavação de louça ou roupa suja. Brigamos, ficamos sem nos falar, nos abraçamos, choramos. Desenvolvemos o afeto.

Já se vão oito anos. E eu parti. Já tem tempo que parti. Mas elas nunca me deixaram pra trás. A tecnologia foi ajudando. E nosso contato só foi se fortalecendo. Em 2016, depois de muito patinar em um terreno endurecido pelo gelo, enfim um buraco se abriu e caí na água fria. Mas lá estavam elas. Todas aquelas mãos de unhas vermelhas atrás de mini-saias. Elas me ofereceram a mão quente lá do Brasil. E aqui nesse frio europeu, com a minha vizinha de casa italiana que cortou relações, com as novas amigas ainda sem entender nada da minha história, recebi a caixa. A caixa dos afetos e da sabedoria, como define a psicóloga Clarissa Pinkola Estés, da dança das grandes mães.

E a medida que fui tirando da caixa esses afetos, enquanto meus filhos riam e pulavam eufóricos (é amor no estado puro, sem interesse, sem orgulho, sem cobrança), foram saindo dali as figuras, os sorrisos, as lagrimas daquelas mães. Lembrei de uma que sonhava com o abraço do pai e um dia achou que tinha encontrado um príncipe encantado de olhos claros e tudo. E se descobriu dançando solitária em torno de si mesma e dos seus filhos, vivendo um dia como ovelha, outro como leoa. Consumindo o corpo e a alma em angústia e espera.

E a outra, grávida do segundo filho, enquanto o marido se apaixonava pela estagiária. Ela carregava a sua barriga usando uma camisa dele, do marido traidor, e ao vê-la chegando gorda envolvida naquela falta de afeto, a voz embargada, os olhos sempre cheios de lágrimas retidas, não imaginávamos o quando poderia vir de clareza e percepção naquela “grande mãe”. Hoje ela é mãe de três, usa blusas de seda decotadas e cada vez que aparece é de tirar o fôlego, plena de vida e disposição, dona do próprio negócio e da própria história.

A caixa. Na caixa tinha isso tudo. Tem a mãe que me mandou chocolates, a mesma que no dia em que preparava sozinha a minha mudança, com um filho de 6, outro de 3 e um bebê de um mês, apareceu lá em casa com uma torta de abobrinha. E que me abraça apertado e mesmo de longe senti aqueles seus olhos claros me encarando com tanta ternura e compreensão. Ela, que ao lado da mãe ovelha-leoa, entende tão bem a dor de ser mãe e querer tanto, tanto, tanto, continuar a ser mulher, ser profissional, ser. Segurei uma das cartas, outra mãe, que engravidou sem querer do segundo filho quando o seu casamento já estava em crise. E lembrei da sua dor ao ter aquele filho rejeitado pelo homem que amava. Ela andava em círculos, dançando e caindo, até encontrar a consciência de si mesma. E recuperar o amor.

Como o peso dessa caixa resistiu a uma viagem tão longa? Aqui na Toscana ela destoa. Aqui tem bons vinhos e pessoas rudes. Senti cheiro de bolo quentinho saindo do forno e vi a fumaça do café. Segurei nas mãos o desenho da filha de outra amiga, ela que também ao engravidar do segundo filho, depois de anos de dolorosas tentativas, viu o marido mergulhar na crise. “Será que o casamento é pra mim mesmo? Queria tanto tocar guitarra.” Elas são resistentes, talvez pelo fato de usar mini-saia no inverno curitibano. Ouvi a gargalhada de outra mãe, ela que a cada gravidez perdia quilos em vômitos e ansiedades. Nós dançamos juntas, eu corria para comprar água de coco no final da aula de balé, engravidamos novamente dançando, subimos no palco, recebemos os aplausos e voltamos para casa trocando fraldas e dando colo.

Nós somos muitas, somos fortes. Um livro, esse veio de uma mãe deslumbrante e elegante, sempre dedicada aos pais e à filha, uma profissional que no seu caminhar impertinente e corajoso dava a cada uma de nós, tão dependentes dos seus companheiros, o exemplo e a certeza que sim, podemos também ser mãe, mulher, profissional sozinhas e com orgulho. Vinha sempre dela um abraço na porta da escola que misturava compreensão e compaixão. Uma grande mãe.

Não acabou, a caixa era grande. Tinha dentro dela também a mãe-caramujo, que se esconde porque sabe que a sua sabedoria em viver plenamente, sem esperar muito, deixando o cabelos ficarem brancos sem medo e trocando a carreira promissora na Alemanha pelas panelas, revela a capacidade em viver plenamente o presente. E quando uma mulher vive plenamente, assim vivem todos a sua volta. Com ou sem mini-saia, de unhas vermelhas ou de cabelos branquinhos. Estamos todas muito assustadas, mas estamos juntas. E a nossa toca é o mundo, amplo, em que recebemos uma vida que merece ser vivida, com muito, tanto afeto.

Aqui na Itália chegou uma caixa do Brasil de mulheres que não têm medo – ou sentem medo sim – mas que decidiram viver a vida com determinação e afeto. Dançando de mãos dadas. Uma ciranda que me deu nesse inverno da minha vida o direito ao amor.

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