Tempo na escola

Neste momento aqui em Aragón, Espanha, estamos vivendo um intenso debate sobre como racionalizar e aproveitar melhor as horas das crianças na escola e, o mais complicado, como podemos melhorar a conciliação com o trabalho dos pais. Não, não é uma a tarefa fácil, em especial se temos em conta a pouca racionalidade dos horários espanhóis, provocada pela longa, longuíssima pausa para o almoço, que prolonga o dia de trabalho muitas vezes até às oito, nove horas da noite.

Atualmente temos o seguinte horário escolar: de nove da manhã até às 16h30. Sendo que as crianças estão em aula de 9h às 12h30, quando vão para o almoço. Aí há duas opções: ou a criança vai comer em casa ou come no refeitório da escola (nosso caso). As aulas recomeçam somente às 15h. Quer dizer,  os meninos e meninas demoram no máximo uma hora para comer, às 13h30 já terminaram, mas ainda tem que esperar até às 15h para voltar à class, para apenas mais hora e meia de aula e ir embora. Os que comem em casa também, às 15h tem que estar de volta, para sair às 16h30 como todos. Não tem muito sentido. Os pais que fazem esta opção passam o dia indo e levando os filhos para a escola.

Nesta hora e meia disponíveis depois do almoço, muitos pais aproveitam para matricular os filhos em atividades extra-curriculares, para que a criança não fique apenas brincando no pátio. A associação de pais contrata professores que dão classes de desenho, xadrez, reforço de inglês, teatro, etc. Mas claro, estas são atividades pagas por fora. No nosso caso, nós matriculamos a Hugo na classe de teatro uma vez por semana. Nos outros dias, ele fica brincando no pátio. Carol tem a sorte de poder dormir depois do almoço, privilégio apenas para os menores da escola, os do Jardim 1 e 2. Hugo com cinco anos e no Jardim 3, perdeu este direito (não há espaço físico para tantas crianças dormirem).

Este ano, o governo de Aragón (o equivalente a um dos nossos estados) abriu a possibilidade a que cada escola organize seu horário. E aqui estamos debatendo qual seria o melhor para nossos filhos. Eu e Nacho somos partidários do que se chama “jornada contínua”, isto é, que as crianças tenham aulas de 9h da manhã até as 14h, direto, com recreio é claro, mas com a parada do almoço mais tarde. Neste caso, quem leva os filhos para comer em casa já não teria mais que voltar para trazê-los outra vez. Às 14h seria o fim do dia escolar. As crianças que comem no refeitório continuariam como estão, mas não teriam mais nenhuma aula depois do almoço, momento sempre mais complicado pelo cansaço. O horário letivo teria o mesmo tempo, mas organizado de uma outra forma.

Para mim, é o mais lógico, mas os que pensamos assim, aparentemente, somos minoria. A longa parada do almoço está tão arraigada na cultura espanhola, que para muitas pessoas parece absurdo não tê-la. O medo à mudança está presente. Alegam que as crianças não têm capacidade de concentração para cinco horas de classes. Dizem que o rendimento baixará. Acrescentam que a mudança de horário poderia significar a morte para os refeitórios escolares e, por conseguinte, o fim de muitos empregos.

Minha opinião é que nossos meninos ficam muitas horas fora de casa. Eles estão sete horas e meia no colégio e depois disso ainda tem que fazer os deveres de casa. E, se o pais decidem matriculá-los em algum esporte ou aula de música, dificilmente chegarão em casa antes das 20h. E assim, onde fica o tempo de brincar, descansar, ver desenho tranquilamente?

E aí chegamos em um debate mais profundo: qual é o tempo para nossos filhos? Queremos tudo: ser profissionais, não apenas por realização pessoal, mas também porque precisamos pagar as contas, mas queremos também criar filhos com apego. Mas para isto também necessitaríamos trabalhos que respeitem este tempo e escolas que nos ajudem neste equilíbrio. E, infelizmente, isto não existe, pelo menos não aqui. Vivemos um equilíbrio precário entre o trabalho, a escola e casa. A busca de uma organização mais saudável do dia está aberta ao debate. Mas ela existe? É possível encontrar um tempo melhor dividido entre todos ou é uma utopia?

E para você? Como  a escola dos teus filhos organiza o tempo? Todas as idéias são bem-vindas.

 

 

 

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