Saudade, portunhol e outras distâncias

Depois de 15 dias de férias no Nordeste do Brasil, Hugo voltou falando “eita”. E usa para tudo!

_ Mamá, mira isto! Eiiiita!

_ Mamá, que vamos comer? Eiiita!

Mas fora esta deliciosa expressão, de resto é só espanhol mesmo. Eles entendem tudo o que eu, ou qualquer pessoa, falo em português, mas respondem sempre em espanhol. Carol ainda arrisca um pouco de portunhol. Na hora de ir embora da casa da avó, chorava:

_ Quero ficarme! Quero ficarme!

Que meus filhos falem basicamente espanhol, me cria um pouco de frustração. E não somente a mim, mais ainda na avó que não entende o que os netos falam. Já os meninos não notam, pensam que todos os entendem, até o momento em que eu não estou por perto para traduzir. Então surge o problema.

Uma noite em que saí, na volta encontrei o Hugo chorando. Ele dizia:

_ Tengo hambre! Tengo hambre!

E ninguém na casa entendeu que ele estava com fome.

Para resolver o problema, talvez tenha que imitar a uma amiga brasileira, que para forçar o filho a falar português, se negava a responder quando ele se dirigia a ela em espanhol. Ou matriculá-los em alguma escolhinha nas férias no Brasil. Sem ter a mãe por perto, vão ter que  ser virar.

Outros amigos me dizem que não, para ter paciência. O importante é que eles entendam. O resto virá com o tempo. Tomara. Enquanto isto, continuo falando, lendo e ouvindo música em português. Na esperança de que nenhuma medida mais drástica seja necessária.

Até porque existem outros conflitos um pouco mais complicados de solucionar. O tempo que nunca é suficiente para os avós que estão longe. E a avó que te cobra porque os netos não tem  com ela a intimidade que deveriam ter. Nem querem falar no skype quando voltamos para casa. Para eles não é importante, por mais que você diga que a vovó queria muito falar com eles. Então, como resolver estas relações tão assimétricas? Quando o adulto sente o peso, mas a criança não? Somente com a convivência mesmo. Além de esperar que eles cresçam um pouco mais para compreender o que de fato é a saudade do outro lado da família. O desejo de compartilhar o dia a dia. Este é um longo caminho que não pode, nem deve ser descuidado pela distância.

Para nossa sorte, Hugo já compreende e sente o que é este amor. Na volta para casa, ele disse para o pai:

_ Sabia papai que tem muita gente que me ama?

 

Comentários

  1. Não poder se comunicar com os parentes é um dos maiores desafios em criar os filhos longe do país de origem da mãe ou do pai. Os meus nasceram na Itália e depois ficaram um tempo no Brasil. A menina quando chegou não falava português e foi uma adaptação lenta, de três meses. A avó não entendia nada…nem na escola. Mas nunca perderam o italiano porque eu sempre me dediquei a isso. No Brasil, desenhos animados só em italiano. Música em italiano. Convivência com amigos italianos…era um trabalho. Mas valeu a pena. Quando voltamos pra Itália em 2015, o italiano fluiu…e eles se adaptaram rapidamente na escola. Tem que trabalhar em casa, Rosane, leia histórias em português, desenhos, tente ter amigos com crianças brasileiras, pode ser que eles não falem logo, mas vão registrar. Boa sorte!

    • Obrigada Lu! Pois é, eu tento. Música (até porque nao tem música melhor que a nossa!), leio livros, falo, coloco desenhos no youtube…mas sou só eu. Quando estamos com nossos amigos brasileiros, as crianças falam espanhol entre elas. Acho que vou matricula-los em alguma colonia de férias no Brasil. Aí eles terao que se fazer entender.

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