Sair do armário.

Mudei. Em 16 anos com Miguel, mudamos 7 vezes: 3 de país, 4 só de casa. Essa última foi de casa. Apesar de ter sido a mudança com a menor distância percorrida- continuamos no mesmo bairro, praticamente na rua de trás- sem sombra de dúvida essa foi a mais difícil que já fiz. São tantos os motivos dela ter sido assim que não caberiam num único post.

Desde que saímos do Brasil nossa relação com o espaço mudou muito: trocamos a amplitude que estávamos habituados em nossa terra pela… digamos… praticidade. A fórmula é simples: a metragem de cada uma de nossas casas foi seguindo o valor do metro quadrado: grande em Madrid, média em Milão e agora, aconchegante em Londres.

Os armários também seguiram esse padrão: o belo closet dividido de Madrid deu lugar a bons armários em Milão; seguido de poucos e pequenos armários em nossa primeira casa de Londres; e finalmente a um único armário dividido pelo casal em nossa atual e nova casa.

Com a alteração de nossa relação espacial , que muitas vezes se traduz em hematomas de grandes extensões localizados  principalmente nas pernas, uma mudança desse porte não se resume a simples tarefa de encaixotar e desencaixotar coisas . Além do exercício físico beirando a fadiga muscular, cheio de agachamento, levantamento de peso, step com carga e outras modalidades, ela tem o desafiador e mais duro dos exercícios: o do desapego emocional. Nesse ponto que entro no meu armário, onde desapego era a palavra de ordem.

Como?

Como se desfazer daquela camiseta que tem estampadas as mãozinhas de Lucca  com pouco mais de 2 anos, quando pela primeira vez ele ficou com os avós lá no Recife para que eu e Miguel pudéssemos viajar? Ou a camiseta  cheia de aplicações de cães salsichas, cada um com uma combinação de tecidos, todos como a minha amada Cuca, presente que ganhei de minha irmã quando eu já não morava no Brasil? E ainda, a saia que usei no casamento de um querido casal de amigos, que já nem juntos mais estão, mas que me lembra tão perfeitamente o quanto estávamos todos felizes, e que linda foi a festa naquela noite? Talvez desse o vestido que foi comprado esperando a celebração do prêmio que não veio, mas que ainda espera uma ocasião à altura para ser usado. Na mesma linha o sapato de salto que está lá, e também espera o dia em que a sensualidade vai vencer o conforto. Tem também aquelas peças que aguardam a oportunidade dos dias quentes chegarem, ou das recepções especiais e noites glamorosas num teatro.

Descobri meu armário um museu de mim mesma: do ontem, do hoje e do amanhã.

Por enquanto resolvi deixá-lo assim, do jeitinho que ele hoje cabe em mim , pois todos os dias o abro e vejo as coisas que me transportam para o que eu sou. Pode ser bobagem de quem mora longe e se apega as coisas para não se perder demais; mas me dá a sensação de pertencimento. Coisas a que pertenço e são pertencidas por mim.

Outras coisas novas têm que entrar nesse armário.

E quando não couber mais nada ?

Bom, para quando isso acontecer, comprei caixas impermeáveis transparentes e cheirinhos de lavanda. Aí, algumas delas irão parar no sótão , outras, as que não couberem mais, essas vão cumprir um outro destino na doação, e fazer parte de outras histórias.

Comentários

  1. Lindo e verdadeiro. Tenho o meu armário também. Na gaveta Lembranças você está numa caixinha em formato de coração. Você me acolheu e me ajudou a encarar uma mudança (a mais complexa pela qual passei na fase profissional do mundo corporativo) daquelas. Nunca vou esquecer disso, do seu sorriso e do seu profissionalismo impecável. Boas mudanças pra VC.

    • Mari, que alegria tão grande saber que faço parte de seu acervo no formato de coração. Guardo aquela época também num lugar muito especial e de vc trago sempre o humor maravilhoso! Agora quem não vai esquecer do que vc acabou de me contar sou eu. Obrigado! boas mudanças para nós sempre Mari. Pena que toda vez que tô no Brasil o tempo nunca é suficiente pra tudo , mas vc está na lista de quem quero dar um abraço.

  2. Por enquanto, a gente se abraça por aqui. Um dia, matamos as saudades pra valer. É muito bom saber que nossas energias estão sempre se encontrando. Bjs e seja feliz!

  3. O depoimento, será essa a palavra mais adequada?, cai como uma luva em nosso momento … em breve partimos para o nosso terceiro destino, outro país, outra cultura … muitos metros quadrados a menos. Desapego também é a palavra … mas não é fácil. Foram 6 anos, um filho cresceu, outro nasceu e os dois tem daqui suas mais vividas lembranças. Além no meu próprio museu há a história deles, da qual por hora sou curadora, tarefa nada fácil. Tenho que reaprender, deixar pra lá a programação mental do “vai que preciso” ou isso eu posso “consertar”, “melhorar” … tantos projetos abandonados pela casa … no fundo é fácil se desfazer das coisas grandes, difícil é lidar com as pequenas coisas que trazem grandes lembranças.
    <3

    • Olá Neda, que bom ler seu depoimento também. Imagino que sua tarefa de curadora deva ser ainda mais complexa. Depois que escrevi esse post recebi uma dica de um amigo sobre o livro ” A mágica da arrumação” da Marie Kondo. Ele conta que o livro ajudou muito na última mudança. Me contou que a autora em alguns momentos chega a ser radical, mas traz na prática ensinamentos muito úteis e um novo jeito de olhar a nossa história através das nossas roupas e objetos que guardamos. Não li, mas anotei a dica e vou ler pra próxima mudança… Te passo também na esperança que possa te ajudar com a sua mudança. Sorte pra vc e muita felicidade no novo lar. beijo grande Neda.

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