Que país é esse?

“Tripulação. Preparar para o pouso.”

Eu já tentava avistar a Baía da Guanabara num misto de ansiedade e alegria quando ouvi o piloto dizer as palavras mágicas. Estávamos chegando “em casa”.

Saímos do Rio há 13 anos, mas ainda consideramos aquela cidade mágica como nossa casa. Éramos apenas um casal. Hoje somos uma família. E até para as meninas o Rio já é o lugar para onde sempre retornamos.

As portas do avião se abrem e temos vontade de saltar sobre os demais passageiros. Uma voz interior tenta me acalmar: ainda temos polícia federal e a costumeira demora para entrega das malas. Pouco depois, sou obrigada a admitir: a fila da imigração foi rápida e a mala já estava nos esperando. Milagre? Sonho? Melhor fingir que nem notei.

Olho em volta e vejo funcionários solícitos, sorrisos, cumprimentos. Até o segurança pede educadamente que a Sofia desça do carrinho de malas para que não se machuque. Saímos do terminal e demos de cara com o verão carioca e eu logo estranhei a imensa quantidade de sorrisos. Depois de um ano na Ásia, sorriso aberto é algo que causa estranheza. De onde saíram essas pessoas? Elas se conhecem? Por que falam e sorriem umas com as outras? São funcionários das empresas aéreas, seguranças, carregadores… Não deveriam estar ranzinzos e reclamando da vida? Era isso o que eu esperava de um Rio de Janeiro pré-Olimpíadas, sobrecarregado de obras e episódios violentos. Pelo menos, era isso o que a imprensa e as mídias sócias retratavam.

O azedume não tardou. Apareceu logo nos primeiros encontros com os amigos. Só um assunto permeia todas as conversas: a malfadada crise – o assunto do qual prometemos nos manter como sempre, ou seja, firmes em nossas opiniões, respeitando as visões diferentes e, principalmente, sem ofensas.

Ao contrário de nossas outras vindas, encontramos um clima pesado, que mais lembrava a de um dia poluído em Pequim.

No entanto, em poucas oportunidades pudemos discutir fatos ou questões. Cheguei a ouvir um “você não pode falar porque não mora mais aqui”. Oi? Para onde foram as animadas discussões nos bares? Em que gaveta remota escondemos as discussões sobre a velha e a nova república? Em que mesa de boteco ficou a esperança nos líderes da nossa geração chegando ao poder?

Quando ouço numa rua do Leblon um senhor atrás de mim gritando que tinham que matar todos os ladrões “inclusive a presidente” logo peço “perdoem-lhes, Pai, pois eles não sabem o que dizem”.

Após alguns dias, não reconheço mais a minha casa, a minha cidade. A Barra da Tijuca, já com dois monstrengos fincados em seu eixo principal (a famigerada estátua da liberdade e o navio encalhado da cidade da música) ganhou mais uma atrocidade: uma ponte estaiada de frente para uma das suas belas montanhas cobertas de verde. Parece que o design, desnecessário para aquela obra, está “na moda”. E o verde deve estar “out”.

O Leblon, como há uns dois anos, continua coberto por tapumes do metrô. Há também dezenas de pontos obstruídos por obras do BRT. Impossível ir aos novos museus, com filas de mais de duas horas.

Dessa vez, deixamos de lado um pouco da cidade e focamos em ficar perto dos mais queridos. Aproveitamos tardes preguiçosas com a família, comemos bem com amigos queridos, visitamos a framily (friends+family). Assim, conseguimos sobreviver a um mês de férias. Sorte das meninas, que só queriam mesmo saber dos avós, dos tios, dos primos, dos cachorros, de picolés da Kibon e da piscina. E, claro, do novo filme do Star Wars.IMG_1069 a

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