O que o dever de casa diz sobre você

Escolas refletem muito sobre uma sociedade, um país, uma cultura. Meus filhos já passaram por três experiências. Escola brasileira, francesa e italiana. Em cada uma delas percebe-se o reflexo das diferenças. E, na minha opinião, é na relação com o dever de casa que mais se ressalta quando o assunto é educação e “o que e como vamos ser quando crescer”. No atual momento estamos sendo engolidos pelos compiti, os inúmeros, longos, indefiníveis, repetitivos e enfadonhos deveres de casa italianos.

Quando ainda estávamos na escola francesa lembro de uma menina sérvia, que acabara de chegar de uma experiência de quatro anos em Roma. Frase da sua mãe: “Nem acredito que agora minha filha tem tempo para fazer as coisas que gosta, ler, brincar, nadar, jogar vôlei. Quando estava na escola na Itália quase todo o tempo livre era dedicado a fazer os deveres de casa”. Quando ouvi isso claro que achei que era exagero. A menina tinha 10 anos. Não era possível.

A comparação com a escola francesa também não ajudava. No primário, o regulamento educativo francês inibe o dever de casa. Professores podem até ser punidos se passarem muito dever. Minha filha mais velha ficou quase quatro anos no sistema francês. E só lembro dela decorando poesia, aprendendo música ou lendo em casa. No máximo estudava umas palavrinhas para um ditado ortográfico. Naqueles quatro anos nunca precisou preencher folhas, responder questionários, matemática então, nem pensar! Lembro do professor do quarto ano dizer que era “proibido” (!!!!) estudar matemática em casa, para não confundir métodos dos professores com os dos pais. Eu achava ótimo.

Os pais brasileiros nem tanto. Vi vários pais matriculando os filhos no tal método Kumon em matemática ou língua portuguesa para reforçar o aprendizado. No caso do português eu até achava que fazia sentido, já que a nossa língua não era prioridade na escola. Mas era a falta do dever, de folhas a serem preenchidas, de avaliações constantes que incomodava os pais mais que tudo.

Os pais brasileiros precisam ver os filhos mostrar trabalho, assim como os italianos, que ainda vão além. O primeiro artigo da Constituição italiana diz que a Itália é uma república fundada no trabalho. O Brasil pede ordem e progresso. Os franceses não. Ao lado da igualdade e fraternidade, liberdade. Fora da escola, vivam! E aprendam poesia e música. Leiam. Para os professores italianos não importa a idade, 7 ou 11 anos, a criança precisa trabalhar, necessita mostrar que está trabalhando, que está ocupada e cria um sentimento de culpa em relação ao prazer que permanece no italiano adulto. O italiano adora se vangloriar do quanto trabalha, quanto está cansado, o quanto se sacrifica. O francês nem toca nesse assunto. “Quem? Eu? Trabalhando?”

E lá vamos nós. Pisa, Itália. Minha filha de 10, no quinto ano, tem aula de segunda a sábado das 8h às 13h, só domingo livre. E todos os dias tem cerca de 10 páginas de dever de casa! Meu filho de 7, no segundo ano, faz o horário integral, das 8h às 16h30, de segunda à sexta. No caso do meu filho, por ser integral, o regulamento prevê que o dever de casa apareça só no fim de semana. Mas as professoras são autônomas. Elas acreditam que as crianças devem ser treinadas desde sempre. Os pais concordam. E lá vamos nós. Terça, quinta e fim de semana, páginas e páginas de dever, no livro, no caderno, em folhas avulsas. Redação, preencher esquemas, 25 operações matemáticas para serem colocadas em coluna e resolvidas. Sem contar quando dão um problema por escrito em uma folha e não basta resolver a questão: é preciso recopiar o enunciado no caderno…

Observar essas neuroses na escola realmente ajuda a ver como o futuro adulto vai encarar a vida e a sua relação com o trabalho. Eu tenho tentado explicar para os meus filhos que nossa permanência é passageira, seja na Itália ou na vida, e que é preciso sim seguir regras e respeitar a coletividade, mas que precisamos manter a lucidez e a clareza diante daquilo que realmente é importante. Refletir sobre a educação é sempre um elemento a mais para ajudar a criar uma sociedade mais agradável e generosa.

Essa semana meu filho de 7 anos tinha uma prova de matemática e estava apavorado. Eu disse: “Eu fiz muitas provas ao longo da minha vida. Sabe onde elas estão?” Ele me olhou, olhos arregalados como sempre: “Não”. Respondi: “Nem eu, devem ter ido parar no lixo, sumiram. Mas eu fiquei, estou aqui, respiro, te abraço e te dou um beijo. E no final é isso o que conta, o que nós somos”. Ele me abraçou e subiu as escadas em direção à sala de aula com um sorriso, confiante. E até fez uma boa prova de matemática.

Comentários

  1. Lu querida,
    Estamos há apenas 1 mês nos EUA e quantas diferenças já percebemos no sistema de ensino! É uma riqueza incrível essa nossa trajetória de vivenciar tantas diferenças, né? Não paro de observar, comparar e pensar. Eu queria pôr num caldeirão (ou melhor, em uma escola incrível) ingredientes de cada lugar que passamos. Quem sabe um dia não nos encontramos para falar sobre isso? Beijos e saudades, Erika

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