Mães que não se abandonam

Três novas mães caíram na minha rede. Ila é uma imigrante marroquina muçulmana, sempre de véu, com seus três filhos, que adora me abraçar, me oferece chá (como no Marrocos!) e me incentiva a caprichar na maquiagem. Micaela é uma italiana que não sabe como fazer para o seu único filho de 3 anos comer e gostar de ir pra escola, daria tudo para se desinteressar um pouco dele e ter mais vontade de se dedicar ao trabalho em um escritório de telefonia. Lili nasceu no Brasil, mas já mora fora há tempo tanto que não sabe mais falar bem o português, trabalha de manhã em um asilo e o resto do dia se dedica aos três filhos. Passa as noites sozinha. O marido peruano trabalha de madrugada.

A primeira impressão é que são boas companhias para um café e um croissant, são delicadas e amorosas. Porém com o passar do tempo fica claro que todas têm em comum, além do amor pelos filhos e a família, a decisão de não varrer as dores para debaixo do tapete. São conscientes dos seus traumas e fraquezas. Mas não os carregam como troféus ou os exibem como uma cruz – ainda mais Ila! muçulmana como é. Enfrentam e refletem. Buscam no presente redimir o que tanto as fez sofrer no passado, pensando principalmente em criar adultos mais saudáveis no futuro.

O que pesa sobre elas é sempre o abandono. Do pai, do marido, da morte. Lidar com a dor do abandono parece ser o maior desafio. Esses dias tenho lembrado muito de uma mãe de uma amiga. Eu não a conheço pessoalmente, mas ouvi sobre suas histórias. Uma mãe de três que teve crises de ansiedade e depressão. Um dia o marido se foi. Um dia os filhos se foram. Ano passado diagnosticaram um câncer. Lembrei da minha prima que morreu aos 35 anos. Depois de uma gravidez difícil, em que ela perdeu uma das gêmeas e engordou mais de de 20 quilos, o marido mudou, perdeu o carinho e o amor. Um rápido câncer ao seio a levou embora, deixando uma filha de 4 anos.

Acredito que parte da incapacidade de lidar com essa dor do abandono se deve ao mito do príncipe encantado, il principe azzurro. Continuar estimulando essa ideia de proteção e salvação é um mal enorme que nossa sociedade tem feito para nossas meninas e meninos. Obviamente tem um fundo moral de constituição da família, oferecia ordem ao sistema comunitário e reforçava a ideia das ligações sentimentais e sociais, da solidariedade e da generosidade. Mas ao vermos hoje o boom de separações (na minha época eu era um escândalo! algumas mães proibiam as filhas de brincarem comigo porque eu era filha de pais separados), nos damos conta que estamos vivendo a morte do príncipe, poucos vão manter a coroa, serão a exceção, e as mulheres vão aprender que são apenas meninos incapazes de lidar eles também com suas dores e fraquezas, que vão cair ou simplesmente sair do cavalo de crinas longas e sedosas.

Foi assim com Ila. Casou logo depois de terminar a faculdade. Imigrou junto com ele para a Itália em busca de uma vida melhor para a primeira filha. Depois vieram mais dois meninos. A vida era dura com tantas crianças. Numa das viagens para o Marrocos o seu marido se apaixonou por outra. Como lá a bigamia é aceita, ele casou e trouxe a nova mulher para a Itália. Deixou Ila morando sozinha com os filhos, lutando contra a depressão que batia todos os dias à sua porta. Ila desenvolveu diabetes. Ano passado o seu marido perdeu o emprego e ficou sem dinheiro, a nova mulher queria se livrar dele e fez uma denúncia de maus tratos. Ele foi preso. Ila conseguiu juntar os 5 mil euros para pagar a liberação da prisão. O seu marido tem um olhar doce de menino, encontro com ele quase sempre na porta escola, buscando os filhos.

Micaela perdeu o pai quando tinha 25 anos. Ele caiu do teto de uma obra da qual era responsável. Micaela é a filha mais nova de três. A mãe, enfermeira, largou o trabalho quando Micaela nascera, era muito difícil equilibrar a vida com um emprego e três filhos e ela decidiu se dedicar à família. Quando o marido morreu a deixou morando em uma casa no campo, com três filhos adultos solteiros e sem saber dirigir. A mãe de Micaela tentou o suicídio três vezes, uma delas deitada na cama com o vestido de noiva e um pote de calmantes na mão. O nascimento do neto deu novas forças para ela e a mantém em vida, é o seu príncipe. Apesar de poder ela também se dar ao luxo de não trabalhar, o marido de Micaela viu o sofrimento da sogra e estimula a mulher a ter vida própria, mantendo um trabalho part-time. Ele almoça todos os dias em casa e brinca de bola com o filho no jardim antes de voltar para o trabalho.
O marido de Lili nunca dorme em casa e morre de ciúmes. Durante o dia ele se comporta como uma sombra dela e tem sempre um olhar atento de galo sobre os seus três pintinhos de 9, 7 e 1 ano. Leva e busca as crianças na escola e antes de ir trabalhar vai passear de bicicleta ou brincar no quintal. O pai de Lili abandonou a mãe quando ela tinha 9 anos. Disse que iria ficar um ano nos Estados Unidos juntando dinheiro para comprar a casa própria, mas só voltou quando ela já tinha 22 anos. Lili resolveu emigrar assim que o reencontrou. Ela faz terapia há anos, tem crises de ansiedade se não consegue achar os pares das meias ou se não encontra a sua xícara preferida no armário da cozinha. A psicóloga diz que ela tem medo de perder, as coisas, os afetos, o que importa. O abandono do pai nunca a abandonou.

Apesar de todas essas dores, essa minha nova rede de mães aqui na Itália tem me oferecido alegria de viver e confiança. A cada chá ou café, damos risadas, algumas vezes os olhos de Micaela ficam marejados ao falar do pai, Lili me repete mil vezes como é bom voltar a ter uma amiga brasileira e poder conversar na sua língua materna, Ila me oferece biscoitos, um almoço, litros de leite para as minhas crianças e uma nova cor de esmalte para as unhas. Mães que de tão humanas enternecem. Mães que se dedicam aos filhos sabendo das dores que estão por vir. Conscientes e reflexivas, que foram abandonadas, mas que não se deixam abandonar.

Comentar