Brasil quando é bom

Tinha acabado de encomendar o peixe na brasa para o almoço, quando minha irmã avisa que havia organizado um passeio de barco pelo manguezal.

“- E agora? Cancelo o peixe? Cancelo o passeio?”

Nenhuma das duas coisas. Estamos no Rio Grande do Norte e o garçom resolveu a questão:

“- Podem ir! O peixe sai quando vocês voltarem. E podem deixar as bolsas que a gente toma conta!”

Todos reclamam ( com razão) da baixa qualidade dos serviços no Brasil, mas há 10 anos fora do país, posso dizer que não tem nada que se compare com a simpatia e com facilidade com que dizemos “sim, não tem problema”. Que fica ainda mais incomparável quando dizemos “obrigada” e a pessoa abre o sorriso e responde:

“- Magina…”

A gente até se emociona…

Porque é só voltar para a Espanha, entrar numa loja e fazer uma pergunta a uma vendedora e ela nem se digna a levantar a cara para te responder. Emite um grunhido como resposta e você que se contente com isto. Sim, temos serviços ruins, mas temos simpatia para dar e vender. E se tivesse (pudesse) escolher,  não teria muitas dúvidas sobre qual escolheria. Até porque é um mito que na Europa tudo funcione sem nenhum problema.

Choques culturais são sempre inevitáveis na ida ou na vinda de qualquer viagem ao Brasil. Mas desta vez realmente aproveitei o fator “simpatia”. E ri muito quando uma amiga do Recife me contou que, quando passou uns meses estudando na Suécia, um tarde estava dando um passeio e lembrou que um amigo seu vivia ali perto de onde ela estava. Não teve dúvidas, chamou à porta do amigo toda simpática. O amigo respondeu que, como ela não havia marcado a visita, ele tinha outros afazeres e não podia recebê-la. Fechou-lhe a porta na cara.

Sua surpresa foi claramente bem maior que qualquer outro sentimento. Porque em Recife, se uma pessoa sabe que outro amigo esteve pela sua rua e não se dignou a chamá-lo, certamente reclamaria. E comportamentos tão opostos só podem terminar em piadas no bar para os amigos. Porque nem na Espanha está permitido chamar a porta de alguém sem avisar. Café com amigas são marcados com uma semana de antecedência. Parece que o improviso perdeu seu espaço e quando  ele acontece e tudo vai bem, a surpresa sempre é grande.

Outra das boas coisas que existem no Brasil é que o brasileiro gosta de criança. Na Espanha, um convite a um adulto nem sempre é extensivo aos filhos. Tem sempre que perguntar antes. “Pode levar os meninos?” E não são todas as vezes que a resposta é sim. Já no Brasil, quase cheguei às lágrimas quando uma vendedora se ofereceu para brincar com a Carol, enquanto eu provava uma roupa.  Não, definitivamente não estou mais acostumada com isto.

Talvez este texto esteja marcado pela saudade das férias em casa. E muitos dirão que de férias tudo é bom. Sim, provavelmente. Mas ando vendo tanto mau humor com relação ao nosso país, crise mais crise, que nestes (poucos) dias de reencontro, pelo menos tive a sorte de rever e me deliciar com o outro lado: que a amabilidade e simpatia ainda existem por aí. Estava na confiança do vendedor de sorvete da praia, que não tinha troco, então marcou de pegar o dinheiro no dia seguinte, naquele mesmo lugar.  Na boa vontade do motorista de taxi, que mesmo vendo os meninos molhados de mar, deixou entrar sem problemas e ainda fez piada. Na eficiência do garçom que trouxe o delicioso peixe no exato momento em que voltamos do passeio de barco.

 

Comentários

  1. Somos críticos sim com nossos serviços porque no cotidiano falta organização e rapidez. Mas esse tom de simpatia e informalidade realmente torna a vida mais humana e generosa. E no Brasil somos bons nisso! Também sinto falta dessa leveza no cotidiano. Mas por outro lado adoro o respeito pelo horário e o compromisso…Não, definitivamente não existe o lugar perfeito. E o Brasil, no fundo, é um lugar muito legal pra se viver sim.

  2. Muito boas lembranças…
    Aqui no Canadá me lembro do Vinicius de Morais comentando de Londres: parece que a surpresa nasceu morta. Em Toronto, mesmo com a maioria feita de imigrantes, as identidades culturais se perdem e sobra a frieza. E nem fale do inverno longo que pra mim a Europa é o paraíso do inverno, não faz tão frio nem dura tanto…em abril já tem verde. Aqui, final de maio as plantas começam a desabrochar…verde e calor só em junho!
    O ‘descomplicar’ da vida é maravilhoso e tem consequências quando vivemos lá, mas quando vamos por um tempo, fica tão evidente a diferença que emociona mesmo.
    Nova aqui no blog, ando fuçando loucamente…conhecendo cada uma por suas histórias.
    Muito legal!
    Escrevi um livro de crônicas e lancei na Cultura em novembro passado. Tenho um blog desde 2008 e migrei para Toronto em 2010. Se quiserem uma participante das bandas do norte da américa, adoraria participar =)

    Um beijão,
    Eliana Rigol

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