Aquele abraço em 2016

Quando 2015 começou, boa parte da humanidade estava feliz e com esperanças. E teve um momento em que a animação foi sendo substituída por dúvidas e incertezas.

Minha filha fez 10 anos e declarou: “Agora tenho mais perguntas na minha cabeça. Quero saber porque as coisas são assim e não de outro jeito, porque acontece de um jeito e não de outro”. O meu menino fez 7 anos e está procurando válvulas de escape para o que ainda não entende e, provavelmente, nunca entenderá. E a minha outra filha vai fazer 4 anos quando o ano estiver no fim e tem diante de si uma infância sem os alicerces que imaginei pra ela.

No início de 2015 eu tinha tantas dúvidas sobre a educação que estava dando a eles. Eu me esforçava tanto para educar e orientar. Mas meus filhos me pareciam despreocupados demais, bagunceiros demais, desorganizados demais. Sentia-me como se estivesse falhando em algo.

No início de 2015 eu planejava uma mudança com a minha família. E era um deslocamento para acrescentar. Cada um via diante de si a possibilidade de buscar no novo explicações para o que tinha se tornado incompreensível no presente. O estresse do cotidiano, a incapacidade de gestão. Era preciso se afastar, olhar por cima do telhado.

Mas 2015 revelaria surpresas. Terrorismo, impeachment, corrupção, violência, Copa do Mundo. Entre humilhações e rasteiras, fomos todos nós, cada um no seu mundinho, descobrindo enormes abismos.

Mas eis que num dos dias mais tristemente inexplicáveis da minha vida, ainda em Brasília, fui alvo de um abraço coletivo de dois senhores que caminhavam pelo Parque da Cidade em uma manhã de sol. Ali minhas lágrimas foram secadas pela sabedoria de quem já viveu mais do que eu e acredita mais no futuro que os jovens angustiados.

Nem tanto tempo depois, em São Paulo, jovens nem um pouco angustiados passeando pelo parque me deram também eles um abraço coletivo, provocado pelo meu olhar triste diante das árvores e dos pássaros. E eis que um palhaço me chama pra dançar! E dançamos juntos, um balé, rodopiando entre as crianças e as folhas, redescobrindo o prazer de viver em pequenas atitudes, simples e cheias de amor.

Ontem fui na casa da minha vizinha com quem tinha me desentendido. E nos abraçamos. Em 2015, sim, ano em que o aquecimento global, o risco de guerra, o medo do colapso vivem entre nós, reencontrei amigos e pessoas importantes que não via há muitos anos e nos abraçamos.

Para mim, 2015 vai ficar como o ano do abraço. Semana passada dei até um abraço virtual na amiga que mais me magoou em 2015! E o ano terminando, 2016 aparece pra mim como um ano frio e inóspito, em que teremos que enfrentar mais desafios, dúvidas e incertezas. E vejo que meus filhos amadurecerão junto comigo, percebi que crescemos e caímos juntos, como deve ser uma verdadeira família.

Era um dia sem sol, a única brasileira que conheço aqui em Pisa bateu na minha porta hoje. Ela trabalha cuidando de idosos, têm três filhos como eu e há duas semanas foi internada com uma hemorragia provocada pelo esforço no trabalho. Naquele dia, enquanto seu marido corria para o hospital, fiquei com os seus três filhos junto aos meus. Na minha casa, eram seis crianças jantando e espalhando brinquedos. Hoje ela veio com um saco de comida e um saco de roupas para os meus filhos. E veio com um abraço e palavras de aconchego. Ela disse que me vira com um olhar tão triste na saída da escola ontem que sentira vontade de me abraçar.

Espero então que em 2016 a humanidade se abrace mais, e não somente nas horas de desespero ou desalento, quando morrem crianças imigradas, jovens em favelas do Rio ou ruas de Paris ou uma barreira se rompe. Espero que as pessoas se abracem mais mesmo sem motivo. Pode ser o alicerce pra minha filha de 4, o conforto para o meu filho de 7, a resposta para minha filha de 10.

Comentar