Aos meus mestres.

 

Meus queridos filhos,

Aqui em Bali ouvi dizer que quando chegamos ao mundo, puros, ainda sem tantas informações e defesas, estamos mais conectados ao que os hindus chamam de Karma. Ao longo da vida crescemos e vamos abrindo novas picadas, visitando as estradas abertas por outros e o Karma vai ficando, em grande parte das vezes, para trás, em algum canto esquecido. Quando nos tornamos mães ou pais, recebemos pequenas criaturas com o código de informação ainda fresco da sua história e sem defesas criadas, abertos para aquilo que precisam desenvolver desde outras vidas para seguirem em evolução. Vocês, os nossos filhos, são a chance que temos de pousar os olhos, observar atentamente, sentir o valor da nossa existência a partir do que trouxeram ao nosso mundo e agir aceitando os desafios que fazem sentido à nossa vida, lá atrás abandonados. Para os hindus a paternidade oferece uma nova chance de nos aproximar desse propósito evolutivo, desse Karma. Sem entrar no mérito da questão se devemos levar as crenças religiosas como uma verdade absoluta, essa ideia me tocou profundamente e o eco dela chacoalhou meu universo, que saiu há sete anos do canto automático, quase confortável e precisava ser repensado.

Você, meu Bento, me trouxe os pés para o chão. Me apresentou um enorme sentido de compaixão. Me ensinou que nem todo mundo é feito para competir. Que nem toda luta é vencida pela força bruta. E que qualquer forma de arte é a melhor maneira de despertar no outro o que existe de melhor e mais humano. Me trouxe a clara dimensão de que toda criança se desenvolve de um jeito diferente. Me trouxe grandes desafios. Tocou meus pontos mais delicados. Me fez mais frágil e mais forte do que jamais pensei que fosse. Me ensinou a duvidar do que parece ser certo. Me ensinou que intuição de mãe é poderosa e que só confia no outro quem confia em si mesmo. Me deu e me dá coragem de assumir a diferença como a nossa grande riqueza. Me ensinou que não existe nada mais especial do que o seu corpo atento, presente e contente. Que irmão existe mesmo para somar. E que um só ajuda o outro a crescer. Me mostrou que seu sorriso grande ao final de uma conquista simples, vale mais que milhões de dólares na conta bancária. Mostrou também que quando essa conquista se dá na cumplicidade de dois irmãos, sem dedo de mãe por perto, o sabor é ainda maior. E que filho também quer que a mãe se cuide. E que, para estar com você, no seu mundo, eu tinha que deixar o meu mundo de performances, resultados e prazos do lado de fora e acessar um universo que era meu, de criança, guardado bem ali dentro, para poder encontrar com o seu por inteiro.

Vicente, meu pequenote grandioso, você me ensinou a ser mais leve. A achar graça onde pode haver um desafio. Me mostrou que brincando eu conseguia ser cada vez melhor e reencontrar de verdade aquela mesma menina que gostava de se imaginar cantora, atriz, escritora e secretária. Que ser mãe de menino ia me fazer brincar de carros, montar pistas e também salvar libélulas e borboletas. E que, de vez em quando, acordar super herói é importante, pois alguém tem que exterminar os pernilongos e salvar o irmão alérgico das malvadezas do inimigo. Mas que outras vezes, faz parte, nos sentimos mesmo mais fraquinhos. E que seu irmão também é forte, mas de um jeito diferente, as músicas são seus super poderes. Você me esclareceu que quem esbraveja não é mau, mas está tentando encontrar a melhor forma de se expressar e pedir alguma atenção. E que, mais importante do que te repreender, é iluminar a grandeza dos seus pequenos gestos. Me mostrou que pensamento de criança vai mesmo além das nuvens, e que a gente ainda precisa entender como é que a chuva não apaga o sol de vez. E que não podemos duvidar de que se vemos a lua, os astros do céu também devem estar nos espiando. Você me ensinou que todos nós estamos aqui para encontrar prazer nessa trilha cheia de dúvidas e aprendizados. E que as dúvidas são mais importantes do que todas as nossas certezas. São elas que nos levam adiante.

O nosso caminho está só no começo. Somos apenas quatro fagulhas minúsculas nesse campo infinito de possibilidades. Ainda não sei qual a memória que ficará deste tempo para vocês, que hoje ainda são tão pequenos, mas se escrevo é porque confio que um dia vão poder ler, compreender e acreditar que na nossa rota sempre podemos achar um espaço para repensar. Hoje, com os pés ainda fincados nesta ilha, não posso afirmar o verdadeiro patrimônio que daqui levaremos quando avançarmos territórios. Mas tenho certeza de que esse espaço valeu mais do que mil vidas. E que com a gente virá a linda lembrança de que ali, na célula primeira, esta que deu origem a tudo somos um só. Porque na natureza não existem padrões, somos diversos, somos únicos, somos usuais, somos vida que segue e que quer mais vida.

 

 

Comentários

  1. Bia, linda declaração! Nestes tempos bicudos com tanta falsidade, falta de amor no ar, ler essa declaração tão sincera, tão verdadeira, renova a minha crença num mundo melhor!

    • Obrigada Paulinha. O mundo há de ser melhor. Amor, cuidado, educação para que eles possam fazer melhor e melhor. E melhorar com eles também. Beijos para vocês.

  2. Lindo Bia!
    Tudo!
    Você, vocês…que prazer foi conhecer-vos e poder partilhar com vocês essa ilha, gratidão, alegria, tristeza- porque na vida também existe a tristeza que é tão importante para nos tornar mais fortes.
    É com razão, que numa ilha em que se sente a dádiva constante, 24/7, nos faça parar, escutar e pensar: o que é que de facto é importante?
    Para mim, o AMOR, seja como/qual for…
    Um beijo e obrigada pelo seu, seus, amores!

    • Obrigada você amiga e sócia tão querida que apareceu nessa passagem linda das nossas vidas (sei que também posso falar pela sua) para me dar esse presente que é estar com você e Justine aprontando por aí. Adoro você e essa sua família. Eu sei bem como vocês vivem o amor. Beijo grande

Comentar