A imponderável nova rotina

Como eu me sinto muitas vezes todos os dias / Ilustração do adorável Norman Rockwell

Como eu me sinto quando tudo foge de mim, muitas vezes, todos os dias / Ilustração do adorável Norman Rockwell

Quando a gente muda de vida e liga o botão recomeçar, costuma fazer um monte de planos para a rotina desse novo momento. Sim, porque você precisa estabelecer essas perspectivas para acreditar que é possível e que vai ser bom. “Vou fazer exercícios. Na mesa, agora, só comida orgânica. Vou ler mais. Tocar piano. Fazer minhas tapeçarias. Escrever no blog.” E quem escuta, acredita que essa será a sua vida. Até você acredita. Mas a realidade sempre se mostra muito diferente.

Passada a fase longa da abertura de caixas e reconhecimento local da melhor padaria, supermercado e feira livre, você faz uma agenda semanal com as tarefas domésticas que precisa cumprir. Aquelas das quais você fugiu, mas não teve jeito, tem que encarar. O dia de trocar a roupa de cama e de banho. O dia para cozinhar a comida que dure uns três dias. O dia de lavar as roupas e ir ao supermercado. Tudo isso levando em consideração a academia duas vezes por semana, as atividades extras da filha, seu tempo para ler, escrever, estudar, trabalhar. Lindo.

A chave de ouro: consegue uma diarista de confiança para quebrar o galho da limpeza mais pesada. E uma passadeira para fazer desaparecer a pilha de roupas que ainda precisam ser passadas (porque quando você muda de vida descobre que muitas delas dá para usar numa boa sem ver a quentura do ferro). Excelente.

Mas esquece de colocar uma margem para o dia em que falta água no prédio, a diarista falta e aparece um frila que você não pode recusar. Ou em que a filha adoece e não vai à escola. Aquele em que o cano embaixo da pia da cozinha arrebenta (e descobre da pior maneira que esse mapeamento dos “faz tudo” locais você ainda não tinha feito). Ou quando o marido está fora da cidade.

E, depois de alguns meses, você engordou três quilos e está culpada por ter pago e não ter ido à academia. A pilha de livros dobrou de tamanho. A poeira cresce sobre o piano. Você escreveu bem menos no blog do que queria, mesmo tendo todos os posts logo ali na sua cabeça. E pede uma pizza porque não tem a menor condição de pensar no que cozinhar para essa gente comer!!

E é aí que você descobre que estabelecer rotinas fixas nessa nova vida é ainda mais complicado. Porque é claro que na vida anterior você sofria de todas essas suas cobranças internas e externas e a sua vida também era um caos. Mas agora tem menos gente por perto para ajudar. O cenário é menos conhecido e mais árido. Os caminhos são mais longos e desconhecidos.

Eu estou a 498 km da minha vida antiga, 1h de avião, 6h30 de carro. Visito ela a cada 15 dias e isso também prejudica minha tentativa de nova rotina: essa semana perdi oito horas tentando voltar enquanto o aeroporto no Rio estava fechado. Minha super e santa mãe está por aqui e dá aquele mega help emergencial. O marido é um super companheiro de todas as roubadas.

Fico pensando nas amigas ao redor que vão morar em outros países e encontram, além de tudo isso, a barreira das diferenças culturais e sociais. Com maridos que viajam muito mais. Com custos de vida altíssimos. E todo mundo por aqui achando que elas estão lá, passeando pela Europa e Ásia, tomando um espumante e curtindo a vida. Como vocês dão conta????

Eu, mais uma vez, monotemática, deixei de querer dar conta. Cuido a cada dia, apenas daquele dia, dos problemas e das vitórias. Abandonei a listinha de tarefas.

Minto. Ainda tenho o dia de lavar as toalhas e trocar a roupa de cama.

Só não sei ao certo qual é.

PS: Esse post começou a ser escrito há duas semanas enquanto Helena estava na aula de natação. Terminei ele na quarta no celular enquanto a esperava na aula de balé. Mas só consegui publicar hoje, depois de uma entrevista para uma reportagem que pretendo escrever até segunda-feira.

Comentários

  1. Raquel, adorei, fiquei me deliciando com o teu texto, essa narrativa louca de um dia de mãe querendo ser mais alguma coisa. E que nem sempre dá certo. Eu vivo com três sozinha na Itália e decidi que nada de lista ou planejamento. Vai no que dá é que o mundo veio do caos e minha casa às vezes será o mundo ainda em construção. Porque é isso. Estamos todos em construção. Parabéns!

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