Violência contra a mulher. Aqui e lá.

Este ano, durante as Fiestas del Pilar, as maiores festas populares de Zaragoza, que acontecem todo o mês de outubro, foi lançada a campanha No es No (Não é Não), como forma de conscientizar tanto meninas, quanto os meninos, contra a violência machista. Sim, aqui também acontece algo parecido ao Carnaval no Brasil, quando grupos de rapazes se reúnem e formam um corredor em que as meninas só podem sair ao dar um beijo em alguém. Felizmente em número bem menor que no Brasil, mas ainda sim suficiente para levantar uma campanha. E para evidenciar que muitas vezes a violência contra a mulher apenas muda de endereço.

De tanto ler histórias escabrosas de mulheres amigas e desconhecidas com o tema do #primeiroassedio, posso me considerar uma pessoa de sorte: não tenho nenhuma que contar. Quer dizer, nenhuma na infância, como tantas que li nas últimas semanas e que tanto me chocaram. Casos que passaram com amigas aos nove ou dez anos. Um horror inominável. Na adolescência a coisa muda de figura e, como todas as mulheres, passei a aceitar algumas atitudes masculinas como algo normal. E passei a tomar certas medidas de auto-proteção: evitar os decotes, as saias muito curtas, não porque não gostasse, mas como forma de minimizar um tipo de abordagem agressiva na rua. Principalmente com 14, 15 anos. Nesta época, presenciei no ônibus a caminho da escola uma cena mais que desagradável. No ônibus lotado, de repente escutamos uma mulher gritar para o homem que estava atrás dela:

– Já gozou, já? Se não gozou, goze logo porque vou descer no próximo ponto.

O ônibus inteiro riu. O homem desceu impunemente. E foi a mulher quem recebeu todos os olhares presentes.

Já na universidade, para ganhar meu primeiro dinheirinho, trabalhei como assistente de pesquisa de mestrado de uma antropóloga. O tema era violência contra a mulher e minha função era ir na delegacia da mulher de Campo Grande (bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro), ler e colher dados sobre os casos registrados. Tinha 18 anos e confesso que não estava preparada para os horrores que li. Tapas e socos eram o mínimo. O normal eram agressões com faca, tiro, queimaduras com cigarro, ferro elétrico e qualquer instrumento usado para torturar outro ser humano. Poucas agressões eram de desconhecidos. Mais de um 90% eram de familiares: pais, maridos, amantes, companheiros, irmãos, vizinhos. Era 1990, ano em que os assassinos de Mônica Granuzzo (lembram? A menina de 14 anos assassinada pelo namorado de “boa família” na Zona Sul do Rio de Janeiro) foram julgados, condenados, mas postos em seguida em liberdade por serem réus primários, bom comportamente, etc.

Nesta época, a violência contra a mulher ainda era chamada de “crime passional”, ainda estava de moda a campanha “quem ama não mata”, como se agredir, estuprar, matar a uma mulher tivesse algo que ver com amor. O assassinato da Mônica Granuzzo me marcou muito. Nós tínhamos a mesma idade.

Na Espanha, a violência de gênero é assunto levado bem à sério. As campanhas na televisão são constantes, as escolas promovem debates entre os alunos e palestras com especialistas. Mesmo assim, 2014 terminou com 51 mulheres assassinadas. No mesmo período, no Brasil, foram mortas 5 mil mulheres (segundo dados do Centro de Atendimento à Mulher). A comparação é simplesmente absurda. Além disso, algo que sempre me chamou a atenção, é que aqui cada vez que há um crime como este, é destaque nos jornais. A cidade onde passa, habitualmente, decreta três dias de luto oficial. É algo que comove. Nao fica escondido na última página do jornal.

Além  disso, a tradição do “fiu-fiu” aqui não é nada bem vista. Este tipo de cantada barata existe, claro, mas não é tão habitual. O mais comum aqui é o machismo exercido como forma de controle à mulher, principalmente entre os adolescentes. Tradição bem arraigada na cultura popular. Até a década de 70, uma mulher espanhola nao podia nem abrir um crediário sem a autorização do marido. Para exercer controle sobre o parceiro, os smartphones e as redes sociais jogam um papel decisivo. É muito fácil para o rapaz saber onde e com quem está a namorada a cada momento. Atitude que muitas vezes se confunde com “proteção” e “carinho”.

Aqui, neste momento, é o que mais temo quando penso nos meus filhos pequenos e no muito que eles ainda tem que aprender e viver. E a única arma que temos é a educação. Nada mais.

 

Comentários

  1. O que mais impressiona é que passamos por décadas achando “natural” ou “inevitável” o machismo, o assédio e em alguns casos até mesmo o abuso e a violência. E nas culturas latinas, por mais que tenhamos dados passos largos, ainda tem muita estrada para que as mulheres não sejam inferiorizadas pelos homens. É uma batalha cotidiana na América Latina e em países europeus como Portugal, Espanha e Itália. Sem falar nos países africanos e árabes, em que a ideia de brigar pela igualdade passa longe. O caminho tem que ser esse, a denúncia, a campanha, parar de jogar para debaixo do tapete. Eu sou de Campo Grande, subúrbio do Rio, e conheço bem essa realidade que você viu na delegacia…e acabamos achando normal… O que é um absurdo.

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