Um Lellowin all’italiana

Aqui na Itália, como no Brasil, o Halloween, ou como escreveu meu filho de 7, o “Lellowin”, é uma festa importada da América do Norte, sem muitos dramas porque os italianos acham os americanos muito interessantes. Não podemos esquecer que foram os soldados americanos que liberaram o território italiano ocupado pelas tropas alemães na Segunda Guerra Mundial. Os americanos chegaram com chocolates numa época em que faltava açúcar. Enfim, os bares e o centro das cidades, vilarejos, bairros, estavam enfeitados para a festa. Também as casas exibiam abóboras iluminadas nas janelas. E grupos de crianças andavam fantasiadas pelas ruas com saquinhos batendo nas portas e dizendo: “Un dolce o uno scherzetto!”

Claro que alguns italianos, principalmente os católicos, reagiram. Uma amiga em Roma fantasiou os filhos de forma mais tradicional, no estilo italiano. O menino era São João Batista e carregava na mão a sua cabeça barbuda cortada. A menina era Santa Lúcia e na mão levava um prato com seus olhos arrancados. Tenebroso. Mais assustador que qualquer vampiro ou bruxa que vi pelas ruas aqui de Cascina, no subúrbio de Pisa. Muito original e corretamente católico. Não tem saci que possa ser mais assustador que os santos católicos mártires andando por aí.

A turma de quinto ano do ensino fundamental da minha filha de 10 anos organizou duas festas, uma para meninas e outra para meninos. Reuniram-se na casa dos pais, se fantasiaram, se maquiaram, andaram pelas ruas pedindo doces e depois comeram…pizza, afinal, estamos na Itália.  As professoras do doposcuola, que cuidam das crianças no contraturno, organizaram uma festa na escola. Cada criança levou um doce e uma bebida, colocaram fantasias e ficaram correndo pelo pátio. Nós preparamos um típico doce brasileiro: bolo de cenoura com cobertura de chocolate. E fizemos teias de aranha com glacê. Ficou bonitinho e assim divulgamos um pouco da culinária do Brasil.

Durante a tarde o centro de Cascina, de Vicopisano, de Lorenzana, Volterra, San Miniato, cidades por toda a Toscana foram tomadas por crianças fantasiadas em busca de balinhas ao som de música eletrônica. Festa que por fim me pareceu semelhante aos típicos carnavais de rua italianos. No meu último carnaval por aqui, há sete anos, já predominavam as músicas brasileiras,  Gilberto Gil, Jorge Benjor, Os Tribalistas, Olodum. Nessa festa das bruxas all’italiana tinha Michel Teló, “ai ai, se eu te pego!” e eu quero tchum tchum tchá tchá. Impressão de que a língua portuguesa, ou o brasiliano, como chamam por aqui, perdeu um pouco da sua riqueza expressiva e se reduziu a sons simplificados. Bom para estrangeiro. Assim talvez como o Halloween, uma festa que tem uma forte tradição, mas que foi se modificando e se adaptando a outras culturas.

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