Tudo muda

” – Papá, quando eu crescer, eu ainda serei o Hugo ou serei outra pessoa? E você Papá? Quando você era pequeno, você era você ou era outro?”

Semana passada, Hugo fez esta pergunta ao Nacho e ficamos todos surpresos. Sem saber bem o que responder. Porque ele, insconscientemente, fez uma das perguntas mais difíceis da psicologia: eu continuarei sendo o mesmo, mesmo que tudo mude ao meu redor?

Nossa! Horas e horas de debate. Não com o Hugo, é claro. Porque ele, que vai fazer cinco anos dia 21, necessita uma resposta mais fácil.

“- Sim, Hugo, você sempre será o nosso Hugo.”

E ele continuou brincando feliz, sem dar mais importância ao assunto.

Mas eu sim fiquei pensando na pergunta. Em particular, se penso somente no que mudei desde que deixei o Brasil e passei a morar em outra cultura. Ou mais ainda, desde que sou mãe em outra cultura. Então, como a Raquel Almeida fez no texto As dez coisas que aprendi em seis meses vivendo fora do Rio,  faço aqui também a minha lista. Sobre minhas mudanças nestes 10 anos de Espanha. Onde acho que fiquei, mesmo que tudo tenha mudado ao meu redor.

1- Ser estrangeira te ensina a ter menos ego. No Brasil já tinha meu espaço, meu trabalho, amigos. Aqui isto não representa nada. Ou quase nada. Teu curriculum tão bem trabalhado não conta muito e este novo espaço tem que ser conquistado. Boa oportunidade para mudar e se reinventar. Se eu mudei ? Sem dúvida. De fotógrafa de jornal diário a professora de fotografia. Outro modo de ver e viver.

2- Ser mãe sem babá, ou empregada todos os dias, te dá um apego aos filhos imenso. De nenhum modo discuto quem tem. Muitas vezes, no auge do meu cansaço, o que me dá é inveja, pois é uma opção que não temos aqui. Mas se antes tinha pouca paciência com a casa, com o abastecimento da geladeira, agora posso dizer que sim, sou uma mãe-dona de casa que pensei que jamais seria. Daquelas que recorta receita de bolo. Que faz maria-chiquinha. Que leva na natação, no parque. Que brinca de carrinho, comidinha, joga futebol no corredor.

3 – Aprendi a respeitar o tempo. Estar longe significa valorizar cada pequeno momento que se tem com o outro. Tudo se intensifica no pouco tempo da convivência com visitas que recebemos e quando somos a visita no Brasil. Também aprendi a dar a máxima importância ao tempo no sentido clima. Só quem vive onde faz frio sabe o prazer que é dizer: que dia bom! E ficar mais um pouquinho na rua, deixar as crianças dormirem mais tarde, só porque hoje fez um tempo espetacular.

4 – Tudo muda um pouco: o paladar se acostuma com outros temperos, teu gosto por roupas se adapta ao clima, tua forma de dirigir passa ser muito menos agressiva e nas férias no Brasil todos te xingam, porque só você respeita o sinal de pedestres. Você passa a ser sentir diferente também. Um pouco estrangeira. Se choca muito mais com a violência, com o trânsito, com o custo de vida. É o preço dos 10 anos.

5 – Escrevendo este texto, levanto a vista e vejo o enorme pôster do Rio de Janeiro que tenho na parede. Nele vejo o Pão de Açúcar. E também vejo meu antigo apartamento. A ciclovia onde passeava. Lembro dos engarrafamentos no bairro de Botafogo, onde morava. Ele me recorda de onde venho. Quem sou. É meu sonho e também meu pé no chão para coisas que já não desejo mais para mim, nem para minha família. A vida segue e te leva a lugares que jamais imaginaria. Mudamos sem perceber. Olhar para cima me faz lembrar. E  como já disse Paulinho da Viola:

“Meu pai sempre me dizia: meu filho tome cuidado!

Quando penso no futuro, não esqueço meu passado.”

 

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