Não esqueçam de Belchite

Agosto de 1937. A Espanha já está há um ano em guerra civil. Os país divido em dois: de um lado, as tropas leais o governo republicano, eleito democraticamente, do outro, os militares fascistas, liderados pelo general Franco. Logo no começo da guerra, os militares conseguiram importantes vitórias em Aragão, ao conquistar as principais cidades da região, inclusive a capital, Zaragoza. O frente aragonês é um dos mais sangrentos desta guerra fratricida. Neste momento, as coisas vão mal para o governo, que consegue à duras penas manter o controle sobre Madri. E com Aragão ocupado, não pode fazer nada para ajudar as cidades republicanas do norte, em Cantábria e Astúrias, cercadas pelos  fascistas.

Em uma tentativa de tirar a pressão sobre o norte, o governo decide um avanço sobre Zaragoza. O exército republicano não é profissional. Boa parte dos seus soldados era formada por milícias internacionais, jovens idealistas, que vieram de todo o mundo combater na Espanha. Careciam de experiência militar, apenas alguns oficiais tinham lutado na chamada Grande Guerra. Os militares do outro bando, além de melhor formados, contavam com o apoio da Alemanha nazista, com armamentos e ajuda nos bombardeios aéreos. A Espanha foi um verdadeiro campo de provas da Alemanha para o que seria a Segunda Guerra Mundial.

Para chegar a Zaragoza,  o exército republicano se deparou com uma pequena cidade, Belchite, a 50 km da capital, que na época tinha 4 mil habitantes. Este pequeno “pueblo” estava fortemente protegido pelos militares franquistas. Mais de 6 mil homens dispostos a não ceder ao avanço das tropas leais a Madri. Os combates foram casa a casa, rua a rua, sob o forte calor do verão. O cheiro de sangue se misturava ao dos cadáveres. Os militares preferiam morrer a se render aos “comunistas”. E quem tentava se entregar, era fuzilado sem piedade. Quando a conquista da cidade era quase completa, 300 militares tentaram romper o cerco e fugir a Zaragoza. Apenas 80 conseguiram. Com a cidade inteira destruída, Belchite é conquistada pelas tropas republicanas.

Tristemente para o governo espanhol, esta vitória não serviu de muito. Não conseguiram chegar a Zaragoza, nem impedir a queda de Santander, a principal cidade do norte da Espanha. O sonho da República Espanhola estava fadado ao fracasso. No final da guerra, o General Franco, agora ditador governante, decidiu que Belchite não seria reconstruída. Ficaria do jeito que estava, como um aviso sobre o que “comunistas” eram capazes de fazer. Usou mão de obra dos prisioneiros de guerra para construir uma outra cidade, ao lado da antiga. A Belchite original continua como estava.

Nestas últimas semanas, em que após os ataques de Paris, a palavra guerra saiu tão fácil das bocas dos políticos europeus, Belchite continua para nos lembrar sobre o que significa exatamente esta palavra. Morte e destruição. Silêncio e abandono. Um verdadeiro monumento a céu aberto a estupidez humana. E só vir aqui e ver.

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