Mãe, o quê aconteceu em Paris?

Diante dos ataques terroristas de fundo religioso, como explicá-los às crianças… Minha filha chegou da escola. Como dizer para aqueles olhos inocentes que em nome do amor por uma ideia de Deus pessoas massacram outras pessoas? E, para retirar a culpa que agora está pesando nas costas dos muçulmanos, as mães precisariam lembrar que um dia foram católicos que queimavam pessoas vivas somente porque se discordava das suas ideias, teorias, escritos. E que organizaram exércitos chamados Cruzadas que invadiam cidades e matavam pessoas em nome da evangelização. E pensar nos anglicanos do rei Henrique que massacraram monges e camponeses que queriam defender a sua fé católica.

Em nome da fé, pessoas se matam. Fé no quê? Em uma ideia de Deus, em uma ideia de amor incondicional pelo ser humano, que é o que, a princípio, seria a base de toda religião. Acreditar em Deus, por princípio, seria acreditar que algo enorme nos ama em toda a nossa humanidade. Não acreditar em Deus pode ser não encontrar razão de ser nesse sonho. Mas odiar em nome de Deus? Não, filhos, não.

Ontem quem matou em Paris matou porque não concorda com a forma que as pessoas vivem, dançando, vendo futebol ou comendo em restaurante. É contra um estilo de vida, não tem nada a ver com Deus. Querem que os outros tenham o mesmo estilo de vida deles. E qual seria esse estilo? Os jovens terroristas de ontem são meninos que cresceram com um buraco na alma. Mas será que faltou afeto? Muitas vezes não. Muitos são de famílias onde receberam amor. Tiveram brinquedos, escola, televisão. Tudo o que vocês têm, meus filhos. Mas por que a revolta então?

Ao não aceitar o mundo como ele é, podemos reagir, discutir, argumentar. Mas para os terroristas de ontem não. Imigrados? Refugiados? Herança da dor de deixar a sua terra invadida por ideias e religiões que não eram as da sua família. Crescer em uma sociedade em que se sentia sempre inadequado. O quanto abraçamos e amamos o diferente? Não, não nos esforçamos para conviver com os diferentes.

Agora se fala em guerra. Sim, ontem foi um ataque. Mas como vamos reagir? Com outro ataque? Odiando quem é diferente e vendo no diferente toda forma de perigo? Essa é a reação imediata. De defesa. Mas mães educam filhos para se defender, reagir? Mães têm a função de educar para agregar e melhorar.

Filhos, esses meninos que pegaram em armas para matar outras pessoas estão erradas em agir assim e se enganam ao pensar que podem ter um mundo legal eliminando as pessoas que agem diferente. Por uma cultura de paz, aceitar a diferença. Mas como dizer isso diante de uma arma? Seja do ladrão no Rio de Janeiro ou do terrorista em Paris? Não, diante disso, repúdio. Mas amanhã, filhos, vamos entender como a religião islâmica é antiga e linda. E que é preciso que as relações entre os países sejam menos de dominadores e dominados, para que essas crianças de hoje possam ir construindo países que se respeitem mutuamente. E que a gente possa viver em uma sociedade em que cada um se respeite.

Ontem mesmo um homem em Londres empurrou uma mulher nos trilhos do metrô porque ela estava de véu. Não, filha, não precisamos eliminar os outros, temos que aprender a conviver com os outros. Um jornal italiano de direita saiu hoje com uma manchete racista. Contra os muçulmanos. Mais racismo? Não, somos seres humanos e podemos ter opções de vida diferentes. Diante daqueles corpos no chão, famílias  desesperadas, um país inteiro se sentindo refém e ameaçado, como sentir que é possível conviver em paz com as diferenças? Vai ser difícil, filhos. Vai, sim.

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