Era para dizer basta

Era um dia pra dizer basta. Não devemos mais justificar bobagens como os homens precisam de mais espaço, sentem naturalmente mais desejo (ui, vou vomitar), não são capazes de lavar um banheiro ou criar filho. E as mulheres apanharem ou serem humilhadas porque se comportaram mal ou provocaram, não, não e não. Chega, né? Fácil falar, mas na prática ainda estamos longe de nos livrarmos de assédios ou violências. Ontem fui tomar um café com a minha mãe em um bar de Vicopisano, uma cidadezinha medieval na Toscana com uma linda torre, e pedimos a um senhor que parecia inofensivo para tirar uma foto. Ele pediu para sentar na nossa mesa e me veio com essa: “Você é tão simpática que se eu tivesse oportunidade te daria umas mordidas”. O quê?

Itália, 2015. Um pesquisa chamada “Rosa Shocking”, promovida por We World Onlus, mostrou que 25% dos jovens italianos consideram que agressões contra namoradas, amantes, amigas ou conhecidas são um simples descontrole que não deve ser condenado. Mas que pode ser justificado como “excesso de amor” ou “porque a mulher provocou”. E 32 % acreditam que a violência doméstica deve permanecer entre quatro paredes porque “roupa suja se lava em casa”.

Conheci muitas novas mulheres nos últimos meses. Francesca tem 41 anos. A filha mais velha, Giulia, de 11 anos, o pai nunca conheceu. Ele desapareceu quando a mãe ficou grávida. Giulia é uma menina doce e amorosa e tem dislexia. Precisa ir a médicos, pedagogos, necessita de ajuda constante para os deveres de casa. Francesca é enfermeira e trabalha em turnos em um hospital. Quatro anos atrás conheceu um outro homem, foram morar juntos e ele despertou a confiança dela. Mais um filho, Federico. Há dois anos o pai do menino também se foi, mora em outro estado e nunca mais apareceu. “Eu sei que dei azar, duas vezes. E sinto minha vida escorrendo pelas minhas mãos, amo meus filhos, mas eu não existo mais”, conta.

Daniela teve seis filhos, duas estão casadas, três moram no exterior, só a mais nova ainda está em casa. Ela engordou e teve um problema no joelho, fez uma cirurgia. De manhã faz fisioterapia, à tarde corta grama. Faz o almoço, limpa a casa, estende a roupa. À noite sai para estudar. Nem o marido nem os filhos cursaram a universidade, só ela, mas nunca foi possível exercer o curso de Farmácia no qual se formou. E eles também não lavam a louça, nem arrumam as camas.

Domingo passado estava caminhando com uma amiga e seu filho de 9 anos, há seis anos ela se separou do marido que a traía e o processou porque descobriu que ele espancava o menino. O pé do menino doía e a mãe se ofereceu para levá-lo nas costas. Mas ela não aguentou o peso. “As mulheres são muito fracas e atrasadas por isso que nenhuma delas chegou ainda na lua ou fez alguma descoberta. As mulheres são inferiores em tudo”, retrucou o menino. Eu tentei dizer que essas afirmações eram absurdas. Mas a mãe, uma mulher que trabalha sozinha para criar seu filho, que passou por vários desafios na vida, explicou: “É normal nessa idade os meninos ficarem contra as meninas e falarem essas coisas entre eles”.

Era um dia pra dizer basta. No entanto, na manifestação contra a violência em uma praça de Lucca conheci a história de Beatrice, que apanhou anos do namorado e nunca teve coragem de contar pra ninguém. Ele era casado e sentia raiva dela porque ele era casado e não podia estar com ela o tempo todo e controlar a sua vida. Por isso a espancava.

Marco e Ilaria eram apaixonados, Marco a considerava linda e inteligente. Aos poucos ele passou a criticar o jeito dela ser, falar, se comportar, começou a afasta-la dos amigos dizendo que ela não valia nada e era incompetente no trabalho. Ilaria perdeu o emprego e entrou em depressão.

Ambra é casada com Matteo há 15 anos e eles têm dois filhos. Aos poucos Ambra foi abandonando a carreira de arquiteta para se dedicar aos filhos e à família, ela nem se lembra bem quando foi que começou a se desligar da vida profissional. Aos poucos Matteo foi também dificultando o acesso de Ambra à situação financeira da família. Ela não sabia quanto ele ganhava nem quanto gastava. Mas ele controlava seus gastos, seus cartões de crédito e de débito. E quando Ambra no passeio de domingo sentia vontade de comprar um chocolate, ele a olhava de cara feia como se estivesse desperdiçando seu dinheiro. Meses atrás ela descobriu que ele tinha um caso com a assistente de 26 anos e que a ajudava financeiramente.

Casar, ter filhos, casar os filhos, fazê-los terem filhos e fazer com que as filhas casadas façam com que os filhos tenham filhos…assim conta Dacia Maraini em “La lunga vita di Marianna Ucrìa”, a história da menina siciliana que foi estuprada pelo tio materno aos 5 anos e que, com o trauma, ficou muda e, aos 12 anos, foi obrigada pelo pai, que conhecia toda a história, a casar com aquele mesmo tio. Seus quatros filhos foram frutos dos estupros que o Senhor Marido Tio cometia todas as noites contra ela.

Hora de dizer basta mesmo.

Comentários

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