Disseram que eu voltei americanizada

MER_americanahTerminei a página 516. Meu livro chegou ao fim, depois de nós na garganta, soluços, reflexões, choro. Depois de torcer para cada sinal fechar e demorar para abrir e eu ganhar breves minutos de leitura. Depois de me apaixonar e torcer pela história de amor de Ifemelu e Obinze, nomes africanos tão pouco comuns nas minhas leituras. Depois de buscar em cada página algum conforto para a questão do racismo – e não encontrar. “Americanah” (Companhia das Letras), da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, ganhou diversos prêmios (merecidamente) por abordar temas nada cômodos com ousadia e sensibilidade: a questão racial nos Estados Unidos – a autora só se deu conta que existia racismo quando foi morar na América –; o estranhamento permanente de viver num país que não o seu natal; as dificuldades ligadas à imigração; e um outro tema, sobre o qual pouco se fala no livro, mas que é o motivo de eu estar escrevendo este post: a criação dos filhos fora de casa.

Sempre morei no Brasil, no Rio de Janeiro. Meus dois filhos nasceram aqui e só viajaram para o exterior duas vezes, ambas para os Estados Unidos (minto, Marina, com 5 meses de vida, conheceu Portugal de cabo a rabo), de férias. Mas minhas amigas do Mães em Rede, todas elas, vivem isso todos os dias: criam seus filhos longe da terra onde nasceram.

“Gosto dos Estados Unidos. É o único lugar onde poderia viver, além daqui. Mas, um dia, um bando de amigos de Blaine (um dos namorados americanos de Ifemelu) e eu estávamos falando sobre crianças e eu me dei conta de que, se algum dia tiver filhos, não quero que tenham uma infância americana. Não quero que digam ‘oi’ para os adultos, quero que digam ‘bom dia’ e ‘boa tarde’. Não quero que murmurem ‘bem’ quando alguém perguntar como estão. Quero que digam ‘estou bem, obrigado’ e ‘eu tenho cinco anos’. Não quero um filho que se alimenta de elogios, espera ganhar um prêmio por ter feito um esforço e desafia os adultos em nome da autoexpressão. Isso é horrivelmente conservador? Os amigos de Blaine disseram que é e, para eles, ‘conservador’ é o pior insulto que existe”.

Talvez entre a Nigéria, terra de Ifemelu, e os Estados Unidos haja mil léguas a nos separar. Mas será que essa distância também existe entre o Brasil e o país da bandeira de listras vermelhas e estrelinhas no fundo azul? Para mim, não exatamente no que incomoda Ifemelu na sua comparação, porque Marina, Rodrigo e seus amigos não falam “bom dia” ou “boa tarde” e “estou bem, obrigado”. Mas talvez eu seja horrivelmente “conservadora”, citando Ifemelu, em outros pontos: quero uma escola inclusiva para meus filhos, e acredito que isso faz parte da formação deles. Como é essa questão nos outros países? Me contem suas experiências. (De qualquer forma, ainda não temos planos de mudança).

Comentários

  1. Hoje me dei conta que os livros escolares dos meus filhos aqui na Itália insistem em textos que falam como as pessoas são diferentes, vivem de formas diferentes, possuem religiões diferentes e querem um mundo diferente. A cultura da diferença. Uma amiga me ligou da França em depressão porque não suportava ver a dificuldade imensa que é a integração entre árabes e franceses, tão diferentes entre si e precisando dividir o mesmo território. E eu te digo que sofria imensamente no Brasil por não conseguir viver integrada aos outros brasileiros, aqueles que não estudaram, que ganham subsalários, que vivem em casas sem conforto, que gostaria que não existisse essa diferença entre nós.

  2. Da Espanha, gostaria que meus filhos nao herdassem a rispidez. Como podem ser ásperos os espanhóis às vezes! Isto nao significa que sejam mal educados, é apenas uma forma de falar pouco amável para os ouvidos brasileiros. Também nao gostaria que fosse tao rígidos, que aprendessem que tudo muda sempre. E nós brasileiros somos especialistas em adaptações.

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