Cultura de bairro

Para quem é de fora e quer conhecer Zaragoza, o provavelmente o morador local indicará a visita às grandes catedrais da cidade ou ao Palácio de La Aljafería, a antiga residência de verão dos reis árabes. Mas para quem vive aqui, um dos lugares mais legais são os Centros Cívicos, como são chamados os centros culturais presentes nos bairros da cidade. Apesar deste nome, que para minha geração lembra as classes de moral e cívica da época da ditadura, estes centros cumprem uma função mais que importante: fazer da cultura algo acessível a todos. E pensei muito neles esta semana, quando o governo do Rio de Janeiro anunciou que fecharia por falta de verbas as Bibliotecas Parques (felizmente parece que a prefeitura vai dar uma mão e finalmente as bibliotecas não fecharão, ufa!). Os Centros Cívicos se parecem muito às Bibliotecas Parques e aqui em Zaragoza fechar um destes centros seria impensável.

Político adora obra grandiosa e muitas vezes pensa que está fazendo algo pela cultura, quando constrói museus imensos e faraônicos. Claro que estes espaços também são importantes, principalmente se pensamos no turismo gerado por estes espaços, mas para mim um centro cultural local é infinitamente mais transformador.

No Centro Cívico La Almozara, a cinco minutos caminhando da nossa casa, temos: biblioteca para adultos e para crianças, ludoteca, restaurante com comida subvencionada para aposentados, espaço para convivência de pessoas idosas, classes de dança para adolescentes, pilates, teatro, etc.

Enfim, aqui é ponto de encontro de todas as pessoas do bairro. Idosos, crianças, jovens e adultos. Sem preconceito. Os adolescentes vão à classe de hip hop, enquanto os idosos jogam bocha. Ao mesmo tempo, as crianças se divertem na ludoteca. Tudo de graça ou muito barato. É parte da nosso rotina. Hugo e Carol escolhem os livros que leremos antes de dormir. Eu dou um curso de fotografia todas as segundas de tarde.

Aqui no bairro vamos exposições de fotografía, recebemos anualmente um festival internacional de teatro de títeres e shows de música. Até o Arnaldo Antunes já tocou aqui. E além de facilitar o convívio entre as gerações, também é um espaço aberto para outras culturas, onde se oferece classes gratuitas de espanhol para estrangeiros recém-chegados.

Como deu para perceber, como todos, sou uma fã dos Centros Cívicos . Zaragoza, com 700 mil habitantes, conta com 22 destes centros. Praticamente tem um por cada bairro. A cidade do Rio de Janeiro, com 6,5 milhões de habitantes, tem dificuldade para manter a quatro (quatro!) bibliotecas abertas. É mais que triste. É um crime contra a cidade, contra todos os cariocas. Mas no meio de tantos crimes, o que é deixar a cidade sem cultura, não é mesmo?

 

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