Minha vizinha italiana me transformou em torre

Podemos viver como a ruína de uma torre pendurada no abismo entre as montanhas cobertas de oliveiras e a planície alegremente povoada até às margens do mar Tirreno. Todos os dias quando vou caminhar, correr (sim, estou tentando!) ou andar de bicicleta tenho como pano de fundo aquela torre. Não é a de Pisa, é a Torre de Caprona, citada até por Dante Alighieri no XXI Canto do Inferno…E me lembro da famosa frase de Jean Paul Sartre (logo ele! que reneguei por anos depois de uma terrível aproximação na adolescência): “O inferno são os outros”. Eu não diria isso, para mim o inferno são como os outros podem fazer da sua vida um inferno. Ou, para ser mais clara, como é difícil conviver.

Mudança prevista para a Itália com três crianças, ainda em 2014. Já me mudei muitas vezes, sei como é difícil encontrar a casa ideal e ainda conjugar com vários novos fatores, escola, médico, área verde, supermercado. Procura de lá, de cá, vários amigos entrevistados, encontrei uma casa deliciosa no campo com jardim e piscina, ao lado de uma ciclovia na beira do rio Arno. Uau! E mais: a dona da casa é vizinha – na verdade, dividimos o jardim e a garagem – e teve seis filhos, a mais nova com 18 anos, sendo que três deles são missionários católicos, dois estão evangelizando índios no Peru e uma filha ensinando flauta às índias de Tocantins, no Brasil. A família toda já tinha feito uma viagem missionária ao Peru há anos. Ela ficou empolgadíssima em alugar a casa para uma brasileira com seu marido e três filhos.

Trocas quase quotidianas de e-mails sobre escola, compra de carro, aulas de violino e piano, combinamos tomar café com bolo, dar risadas, falar dos filhos e da vida. Quando chegamos foi uma festa. Seu marido foi nos buscar na estação de trem, nos ofereceram o almoço (meu marido desconfiou, porque não ofereceram vinho…numa cidade toscana, realmente…mas sempre acho ele muito exigente). Conseguiram doações de bicicletas para nossos filhos, nos emprestaram o carro até conseguirmos comprar o nosso. Tudo o que eu sonhava, sabendo que meu marido iria ficar boa parte do tempo viajando à trabalho, eu estaria inserida em uma família.

Primeiras semanas passaram, conversas escasseando. Só parou no dia em que as crianças estavam jogando peteca. Achou exótico, pediu para tirar uma foto das crianças com a tal impressionante bola de penas. Foi a única que vez que se interessou por eles. Ái vieram comentários sobre a forma em que eu fechava as janelas não era correta em dias de vento ou que eu não sabia separar corretamente o lixo. No dia seguinte em que meu filho resolveu tomar banho de mangueira e depois brincar de lama com seus carrinhos, eles fecharam o registro da água no jardim. Aí o marido dela pediu que não andassem de bicicleta em casa porque estragava a grama, que fossem para a ciclovia lá fora. E no dia em que as crianças resolveram espalhar os bonecos de Playmobil pela calçada do jardim, a senhora começou a varrer as folhas levantando poeira… “E quando entrarem na piscina coloquem as toucas porque é mais higiênico”. Em seguida repararam que meus filhos viam muita televisão e que eles criaram os seis filhos sem TV em casa…Expliquei que os meus também não viam muito antes, mas eram os primeiros dias na Itália, eles estavam sem escola e amigos, e com os desenhos também iriam se acostumando com o italiano e, claro, não comentei nada sobre o fato que eles estavam sendo sorrateiramente expulsos do jardim.

Um dia estava pendurando roupa no varal, chegou uma amiga dela e puxei assunto. Moro no campo, vou pra universidade só duas vezes por semana, estou sempre louca para conversar com alguém e nem sempre tem uma mãe sobrando no portão da escola…Ela e a amiga estavam vestidas de moletom largo, cabelo estilo joãozinho, nem sombra de batom. Eu já tive meu momento dona de casa largada mas, com os 40, eu e minhas amigas mais próximas adotamos o lema “mini-saia, salto não muito alto e pelo menos sempre um BB Cream e rímel”. Aí ela foi certeira: “Não imaginava que você fosse tão alta, e nem parece mãe de três, sembri una ragazzina”. Na hora fiquei na dúvida se aquilo era elogio. “E quando seu marido volta?”

Passo a maior parte do meu tempo no computador ou com um livro quando as crianças não estão em casa. Ela passa a maior parte do seu tempo de avental na frente do fogão ou empurrando um cortador de grama. Temos só 10 anos de diferença. Ela é formada em farmácia, mas casou cedo e logo teve filhos, não trabalhou fora, como tantas outras mulheres que conheço e admiro. Podíamos conversar e tomar café sim. Somos mães, mulheres, podíamos trocar experiências, mas ela veio me procurar só pra dizer que ia me cobrar mais do que tinha sido combinado. Tinha se enganado e anda com a memória fraca. Passou meu aniversário, só o seu marido me deu parabéns, ela ignorou. No dia seguinte veio me dizer que posso ficar só até o último dia de escola das crianças. “Daí em diante pra onde vão é problema de vocês”. Apesar do contrato assinado, de ser um mãe missionária, a ideia dessa mãe imigrada de um país do sul do mundo não correspondeu a suas expectativas e via! E eu achando que tinha encontrado o meu refúgio na Toscana, com tanto espaço verde para as crianças e tranquilidade para trabalhar, expectativas frustradas também. Como na Divina Comédia de Dante diante dos soldados inimigos descendo a Torre di Caprona, temos que duvidar sempre das nossas expectativas.

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