Manhas

São oito e meia da manhã, a hora de maior estresse do dia. Faltam 30 minutos para tocar a sirene do colégio e as duas crianças de quatro e três anos ainda estão de pijama. E a pressa começa:

– Vamos rápido! Escovar os dentes! Tirar o pijama! Rápido!

O menino sai correndo, faz um pouco de manha porque não quer se vestir sozinho, mas afinal em dez minutos está pronto para sair. Penteado e com dentes escovados.

A menina de três anos começa:

– Esta roupa não! Este sapato não! Não! E não!

A mãe argumenta:

– A calça rosa está lavando. Você não pode ir de sandália porque está frio. Tem que ir de tênis.

E a guerra começa:

– Não! Não quero esta blusa! Não quero este casaco! Não quero pentear!

Quem já passou por isto, por favor, me dê uma luz, porque não é uma batalha fácil. No final a coisa se resolve com a mãe gritando (e se arrependendo) e ameaçando que se ela não se vestir, não irá ao colégio. A menina ama a escola e esta ameaça sempre surte efeito. Saem todos no último minuto e chegam na escola com a sirene tocando. E a menina, que cinco minutos antes era um pequeno monstrinho, ri feliz e te dá milhões de beijos adoráveis.

Dizem os especialistas que três anos é a adolescência da infância. É quando nossos pequenos estão se afirmando, marcando seu espaço e também nos provando, vendo até onde eles podem ir. É aquele momento da birra, da manha, daquela vergonha que a gente passa quando a criatura se joga no chão e diz não vai caminhar mais. E você conta até 10, até 100, até 1000 para não levantar a pequena pessoa pela orelha. Toda tua paciência é posta à prova. E também é quando você deve impor as linhas que não podem ser ultrapassadas na dura tarefa de educar. Não, não é nada fácil.

Talvez porque estas linhas infranqueáveis já não estão tão claras na educação moderna. Ninguém aqui quer ser o malvado da história, a bruxa má. Mas educar também é isto. Ser a vilã do filme do dia a dia. E já que é assim, pelo menos creio que deveríamos ser umas vilãs coerentes e o que “não pode” deve ficar claro para as crianças. Mas também não precisamos ser vilãs inflexíveis, podemos dar espaço para este crescimento, tentando respeitar, dentro dos limites da idade, os quereres destes meninos e meninas.

Brinquedo, por exemplo, quem traz é o Papai Noel e os Reis Magos. Então, pode berrar na porta da loja tudo o quanto quiser. Não tem. Eles, na verdade, nem fazem isto mais. Aprenderam. Entram na loja e vão organizando a lista para o fim do ano. Outra norma é que compramos figurinha uma vez por semana. E só. Sorvete é no domingo. No meio da semana, a sobremesa é fruta. Mas, de vez em quando, cai uma balinha depois da escola. E um biscoito recheado na sexta à tarde. Provando que não sou tão vilã assim.

Agora resta a batalha da roupa e do pente. E então, alguma luz? Minha última estratégia é dar três opções para a menina escolher. Melhorou, mas ainda não é uma guerra resolvida. E pior: ainda faltam seis meses para a criatura fazer quatro anos! Socorro!

Para quem entende espanhol, deixo aqui o excelente video do jornalista e educador Cales Capdevilla, que com muito humor, nos conta a dura e divertida tarefa de educar. Infelizmente, nao tem legendas em português.

 

 

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