Para que lado eu vou

Mais um texto lindo da nossa mae colaboradora Luciana Doneda. Como confrontamos o ensino que sonhamos com a realidade do ensino que temos.

“Se continuarem cantando e dançando, acabou a aula de inglês e só vai ter matemática”, ameaçou a professora na reunião da turma de segundo ano do meu filho de 7 anos. Fui uma mãe waldorf, daquelas que acreditavam que a melhor forma de educar era através da arte. Itália, 2015, ensino público. O material didático de inglês inclui um CD com músicas e os alunos dançavam ao invés de marcar um X no livro.

 

As tais crianças de 6 e 7 anos devem ficar mais responsáveis. Estão no período integral, das 8h30 às 16h30, mas o dever de casa não será apenas no fim de semana, como estabelecido no programa, virá também terça e quinta. “Assim estarão preparados para o sexto ano”. Fui ficando com as mãos geladas. Além disso, todo o texto impresso lido em classe agora deve ser também copiado em letra cursiva no caderno. Cópia da fotocópia. Cópia da cópia.

 

Na festa de aniversário de 7 anos do Christian, dois dias depois, várias mães estavam presentes. O assunto surgiu: “- Mas ela está certa. Pra que serve mesmo isso de ficar estudando inglês…” ;  “Até parece que vai servir pra alguma coisa na hora de procurar trabalho”; “- E as avaliações do governo são de Italiano e Matemática, isso é perder tempo”; “ – Ano passado já foi aquela enrolação com muita história e geografia”.

 

Se continuar assim vai parecer que meus filhos caíram diretamente nas mãos da diretora da escola da “Matilda” de Rohald Dahl. Não, o caso não é tão grave. Uma linda poesia de outono, uma experiência com tinta e aipo, alongamento no fim da aula, passeio ao teatro. O que surpreende é essa cobrança de responsabilidade visando um futuro ainda muito distante para aquelas têtes blondes e brunes em sala de aula. Diversão não poderia conviver com a educação e a arte só é admitida no formato tradicional.

 

“Senhora, mas seu filho não copia, ele se encanta com seus pensamentos e não trabalha”, a professora falando do meu menino – senti uma ponta de orgulho, ainda mais depois que vi  seus peixinhos pintados no caderno, uns com as cores da bandeira da Itália, outros com a bandeira do Brasil. Nenhum comentário da professora diante dessa pontinha de criatividade. Na outra página do caderno, diante de um outro desenho que ele pintou de qualquer jeito, a avaliação contundente da maestra: “Colori male”. Que dó. Falei pra ele que nenhuma criança em nenhum lugar do mundo pinta mal aos 7 anos…

 

As professoras certamente não estudaram Rudolf Steiner nas aulas de pedagogia, mas foram obrigadas a mergulhar na obra de Maria Montessori. Por isso surpreende sim essa desvalorização do ser criança. Embarcar nessa hegemonia da educação de resultados depende dos pais, são eles que legitimam essa prática. No Brasil de tantas desigualdades tantos pais pretendem simplesmente que o filho seja capaz de preencher uma ficha de cadastro ou saiba fazer contas para trabalhar como caixas de supermercado. Fui professora de teatro em uma escola pública de ensino fundamental em Paciência, subúrbio do Rio, e alguns pais reclamavam da perda de tempo.

 

Quem são esses pais e professores que pretendem planejar o futuro dessas crianças penalizando o presente? Um daqueles alunos poderia ser despertado na aula de artes talvez não para ser um artista, mas para descobrir dentro de si potenciais diferenciados. O filósofo francês Pierre Bourdieu afirma que nesse incentivo se esconde a vontade de ser, fazer, transformar. Quando esse estímulo não é oferecido, ou pior, é até mesmo negado, a criança estaria perdendo uma bela chance de se conhecer e se desvendar. Os pais italianos desse subúrbio de Pisa pretendem boas notas e um bom emprego para seus filhos, e assim todo o resto que a educação poderia oferecer se dilui.

 

Somos tão suscetíveis ao ambiente que, após a reunião e a festinha de aniversário no domingo, fiz meu filho ficar até 22 horas fazendo dever. Foi um sufoco tirar as crianças – e eu também! – da cama na segunda de manhã. Ainda inebriada por essa nuvem de busca desenfreada por resultados, depois de deixar as crianças na escola embarquei em um carrinho de compras no hipermercado, planejei o cardápio da semana toda e fiz um estoque de lápis e borrachas – o meu filho gasta um lápis inteiro a cada dois dias! Voltei pra casa com a geladeira e dispensa abarrotadas, e a alma vazia.

 

No fim da tarde, o sol apareceu. Respirei fundo e deixei de lado os cadernos das crianças, preparamos um lanche com schiacciata, um pão típico da toscana assado no forno à lenha com muiiiiiiito azeite, e convidei todo mundo para sentar na varanda de casa para brincar de Carcassone, um jogo de tabuleiro em que temos que construir cidades medievais, mosteiros e estradas pelo campo – exatamente a paisagem que temos diante de casa. Minha filha de 10 anos pegou a flauta doce e começou a tocar uma música que ela lembrava ainda do seu jardim de infância waldorf. “Sobe a chama, mais alto, ilumina nossas mentes, nossas almas”. E o sol se pôs.

 

 

 

 

 

Comentários

  1. E ouvi ontem de uma amiga italiana: “ainda bem que você não comentou nada na reunião…iam logo pensar ‘lá vem essas brasileiras que só pensam em sambar”‘

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