A educaçao nossa de todos os dias

Tarde de outono agradável, daquelas que te convidam a sair de casa. Ainda mais em dia de festa. O parque estava cheio de crianças para os espetáculos de marionetes. Uma atrás do outra, as apresentações se sucediam. E vamos mudando de cenário. Da pracinha do parque para debaixo das árvores, das árvores para o passeio central e a cada mudança uma ponto de atenção, de cuidado, de educação:

– Espera. Não é a tua vez. Quando o outro termine. Espera. No final da fila. Um de cada vez. Espera.

Educar, a todos os momentos, a todas as horas.

Quando se juntam mais crianças amigas e mais pais, outros cuidados vão se somando.

– Não briguem! Quando termine fulano. Não se bate. Não digas isto! Um de cada vez. Vamos! Espera. Como se diz? Obrigada. De nada.

E te invade aquela sensação de que você se diverte porque as crianças se divertem, nada melhor que vê-las felizes. Mas o que realmente você queria fazer era estar em casa vendo um filme. Mas não. Aí está você, como um representante da categoria de pais engajados, que valoriza as amizades das crianças, que quer que elas se divirtam com os amigos durante as festas da cidade. E ainda mais: quer que elas adquiram sensibilidade artística, levando-as ao teatro de marionestes. Sim, somos realmente pais comprometidos. Cansadamente comprometidos com a educação.

De repente todas as luzes do paque se apagam. Os chafarizes ganham luzes coloridas, que bailam ao som das músicas que saem dos auto-falantes presos nas árvores. Estranhamente tocam Gabriel o Pensador e Lulu Santos. As duas mães brasileiras presentes riem. E concordam:

– Ninguém merece!

Mas enfim, saimos correndo atrás das crianças, que espertamente já se colocaram na primeira fila. O medo não é que se jogassem no chafariz. É que joguem o filho de algum desconhecido. Tudo é possível quando quatro crianças entre três e quatro anos estão juntas. Mas não. Fascinadas pela luz e as águas dançantes, estavam, por fim, paradas.

Nós pais pensamos que podíamos relaxar um pouco. Mas uma voz que vinha por detrás nos chama a atenção:

– Saiam daí! Vocês estão nos atrapalhando.

Um grupo de adultos também queria ver o espetáculo das águas coloridas e nós entramos na sua frente.

– Desculpa, mas não vai dar. Não podemos deixar as crianças sozinhas. Ir um pouco para o lado. Olha quanto espaço.

A resposta veio em um tom mais elevado.

– Gente sem educação! Entra na frente dos outros e ainda diz que não vai sair!

– Olha só, não vou sair mesmo. Se quiser que se mude.

E o tom sobe.

– Pois veja se você gosta disto!

E um homem adulto. Se põe a pouco centímetros de minha amiga. E grita:

– Tá gostando! Tá gostando!

– Para mim tanto faz. Não estou louca! _ é a resposta.

E as crianças se viram. Olham a todos espantados. Não disseram nada. Mas tenho certeza que pensaram:

– Não briguem. Espera. Não é a tua vez. Primeiro fulano, depois você. Se gritar não terá nada. Pede com educação. Por favor. Obrigada. De nada.

 

Comentários

  1. Uma das marcas da nossa época é a falta de cortesia e de paciência. O esperar, o respeitar, o dar. Para as mães (e pais, e avós, e tias…) o desafio maior é como ensinar isso às crianças sabendo que em volta o mundo anda para o outro lado. Existem sim pessoas que ensinam às suas crianças para empurrar, revidar, conseguir o melhor lugar. E aí? Como ficamos diante dessas situações?

    • Pois é…tento ensinar aos meus o respeito e morro de vergonha quando eles, na ansia de conseguir algo, passam por cima. Normal. Estao aprendendo. Por isto estamos sempre presentes, para dizer que nao é assim. Mas difícil é quando, em vez de dar o exemplo, bato-boca com alguém. Mas também é ensinar, nao?

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